
Por Adalberto Luque
Manhã de 21 de agosto. Trânsito intenso, como em todos os dias. Por volta das 07h00 no Trevão de Ribeirão Preto — principal acesso rodoviário da cidade, na Zona Leste, uma carreta bitrem transportando toneladas de cana-de-açúcar trafegava pela região. Ao acessar uma das alças do Anel Viário Sul, nas proximidades do Novo Shopping, o segundo vagão da carreta apresentou problemas no eixo, de acordo com a Polícia Militar Rodoviária (PMRv). O cavalo (cabine do motorista) e o primeiro vagão permaneceram estáveis, mas o segundo vagão se desprendeu e tombou, interditando completamente a alça de acesso.
A carga de cana espalhou-se por toda a alça e alcançou a pista adjacente, onde circulavam outros veículos. Em minutos, cinco motociclistas sofreram quedas ao passarem pela área com a cana espalhada. Ninguém se feriu gravemente, mas ao menos um dos motociclistas precisou ser levado ao hospital. A alça ficou interditada por cerca de sete horas, tempo necessário para a remoção do vagão tombado e da carga. A pista lateral também precisou ser interditada três vezes para limpeza, evitando novos acidentes com motociclistas. O congestionamento se estendeu por toda a manhã. Quem optou por desvios enfrentou até três quilômetros a mais de percurso.
Frequentes
Esse não foi um caso isolado na região de Ribeirão Preto. Em agosto, pelo menos outros oito acidentes com caminhões causaram lentidão ou paralisação nas rodovias da cidade, com destaque para a Rodovia Anhanguera (SP-330), que concentrou a maioria dos casos. Expandindo o raio para municípios vizinhos, como Cravinhos e Jardinópolis, o número de acidentes cresce ainda mais. Houve registros de mortes, feridos e bloqueios prolongados.
Com a safra de cana-de-açúcar em ritmo acelerado, a circulação de caminhões nas rodovias da região aumenta significativamente. Embora não haja dados oficializados, centenas de veículos atuam no transporte da matéria-prima para usinas de açúcar e álcool da região. Esse aumento impacta diretamente o número de acidentes. Apenas no trecho sob concessão da Entrevias, na região de Ribeirão Preto, foram registrados cinco acidentes unicamente com caminhões canavieiros, entre janeiro e julho deste ano.
“Os principais fatores de risco em acidentes com caminhões canavieiros são a manutenção deficiente e a lentidão excessiva, que muitas vezes surpreendem outros motoristas. A prevenção é a melhor ferramenta: condutores devem manter distância segura, reduzir a velocidade e evitar manobras bruscas. A indústria canavieira deve cumprir rigorosamente as normas de segurança. Iluminação traseira reforçada é fundamental para a visibilidade noturna e segurança de todos nas rodovias”, afirma Carlos Costa, gerente de operações da Entrevias.
Fiscalização
O Ministério Público do Trabalho (MPT) intensificou, nos últimos anos, ações contra o excesso de carga no transporte de cana nas rodovias paulistas. O objetivo é garantir a segurança dos motoristas e da população exposta aos riscos de acidentes. A Procuradoria do Trabalho em Bauru obteve, em 2024, a condenação de duas grandes usinas da região. Ambas foram obrigadas a reduzir o peso das cargas e a utilizar apenas veículos com configurações permitidas pelo Código de Trânsito Brasileiro (CTB).
As decisões da 1ª Vara do Trabalho de Bauru e da Vara do Trabalho de Lins também determinaram o pagamento de indenizações por danos morais coletivos: R$ 100 mil para a usina de Bauru e R$ 400 mil para a de Lins. Ainda cabe recurso ao Tribunal Regional do Trabalho da 15ª Região. Relatórios de pesagem confirmaram que veículos estavam transportando volumes muito acima do permitido. O CTB classifica o excesso de peso como infração, sujeita a multa. Resolução específica estabelece os requisitos para circulação de Combinações de Veículos de Carga (CVC) com Peso Bruto Total Combinado (PBTC) entre 74 e 91 toneladas no transporte de cana. Documentos apresentados pelas próprias empresas revelaram composições transportando até 121 toneladas — acima do limite legal.
Sertãozinho
Em 17 de junho deste ano, a Procuradoria do Trabalho de Ribeirão Preto obteve na Justiça do Trabalho a condenação de uma usina de Sertãozinho. A empresa foi obrigada a regularizar a pesagem de seus veículos conforme determina o CTB. Além da redução de peso e uso exclusivo de veículos autorizados, a Justiça determinou pagamento de R$ 500 mil por danos morais coletivos. Cabe recurso da decisão.
A procuradora Regina Duarte da Silva conduziu a investigação a partir de denúncias encaminhadas pelo MPT de Bauru, que alertavam para o aumento da prática de sobrecarga no transporte de cana. “Há riscos elevados provocados pelo transporte de carga acima do permitido, expondo motoristas e demais trabalhadores a acidentes decorrentes da limitação da mobilidade, queda de eixos, desprendimento de carga, tombamento do veículo e desgaste acentuado de freios e pneus”, alerta a procuradora.
Além da indenização, a empresa deverá cumprir uma série de exigências: inserir nos caminhões a indicação do peso máximo permitido; não autorizar o transporte de carga em veículos com configurações não homologadas; manter sistema informatizado com dados dos veículos e motoristas; e não exceder o limite legal de carga — seja com motoristas próprios, terceiros ou autônomos, em veículos próprios ou locados — sob pena de sanções.
Aumento de acidentes
O número de acidentes com caminhões de carga nas rodovias federais cresceu em 2024, totalizando 1.437 ocorrências, segundo dados da Polícia Rodoviária Federal (PRF) e da Confederação Nacional do Transporte (CNT). Do total, 53% ocorreram na região Sudeste, com São Paulo concentrando 27% dos casos. Conforme a CNT, os principais tipos de acidente com caminhões envolvem colisão, capotamento/tombamento e saída de pista.
Nacionalmente, o número de acidentes cresceu 7,18% em 2024, em comparação com 2023. As mortes aumentaram 20,2% no mesmo período. Há trechos de rodovias federais que registraram até um tombamento por dia. Além de vítimas e danos materiais, esses acidentes geram impactos econômicos significativos. Um único caminhoneiro pode interromper a rotina de milhares de pessoas: rodovias fechadas, trânsito parado, cargas paradas, compromissos cancelados, trabalhadores impedidos de chegar aos seus destinos.
Minoria que impacta
Segundo o Ministério dos Transportes, a frota nacional em junho deste ano era de 126.775.810 veículos. Destes, 50,55% eram automóveis, e caminhões representavam 3,3% — o equivalente a 4.173.169 veículos. Em Ribeirão Preto, segundo o IBGE, a frota total em 2024 era de 608 mil veículos, dos quais 52,58% eram automóveis e 2,75% caminhões. Mesmo sendo minoria, os caminhões protagonizam mais acidentes proporcionalmente.
A CNT destaca que a profissão de caminhoneiro é vital para a economia brasileira. Esses profissionais transportam mais de 60% da carga nacional, desempenhando papel essencial na logística de insumos, alimentos, combustíveis, medicamentos, água, gás e outros bens. Apesar disso, trafegam por rodovias em más condições, enfrentam jornadas exaustivas e lidam com riscos de assaltos, acidentes e afastamento prolongado de suas famílias.
Entre os fatores que mais contribuem para os acidentes, a CNT aponta: longas distâncias, prazos apertados, falhas no planejamento, falta de descanso, excesso de carga e problemas mecânicos. A ausência de manutenção adequada também é recorrente. A falta de atenção foi responsável por 39,35% das ocorrências com caminhões. Em seguida, vêm fatores humanos associados à fiscalização ou infraestrutura (26,9%) e fatores humanos não associados a esses elementos (13,05%). Defeitos nos veículos foram a causa em 7,58% dos acidentes, enquanto o uso de álcool e substâncias psicoativas (como rebite) apareceu em 4,32% dos casos.
Com uma safra estimada em 668,8 milhões de toneladas, segundo o governo federal, a circulação de caminhões canavieiros e carretas bitrem deve continuar intensa nas rodovias. O melhor a fazer é respeitar a sinalização, os limites de velocidade e as orientações para tráfego de veículos longos, além de contar com a prudência dos caminhoneiros — seja na condução segura, no respeito aos limites de carga ou na utilização de veículos devidamente regulamentados.