A amizade alonga a vida

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Por Fabiana Guerrelhas

O sítio da minha mãe tem quase a minha idade. A casa térrea, dos anos 1980, de tijolinho à vista, piso de ardósia e janelas arredondadas, começou com três quartos, que acomodavam bem meus pais, meus dois irmãos e eu. A sala é ampla, com o telhado aparente, sofás de alvenaria e uma grande varanda marcada pela mesa de azulejo português que denuncia a origem do meu pai. Há lareira para os dias frios, churrasqueira e fogão à lenha para os encontros, além de um quiosque de sapê onde as conversas dos mais festeiros não têm fim.

Com o passar dos anos, a casa cresceu como nós: ganhou mais uma suíte e uma piscina que diverte as crianças. As reformas sucessivas garantiram sua longevidade. Se fosse uma pessoa, teria testemunhado muitas histórias.

Foi ela a escolhida para comemorar os 70 anos do “Mocidade Basquete Clube”, grupo de amigos reunidos em torno do esporte. O dia estava ensolarado, sem nuvens. O calor ameno e a luminosidade do outono deixavam o jardim ainda mais colorido — jardim exuberante, planejado e executado com esmero pela anfitriã. Foi dele que saíram as flores e plantas dos arranjos que enfeitavam as mesas repletas de comida, churrasco e chope gelado.

Antes mesmo do meio-dia, chegaram os primeiros convidados. Logo vieram todos, com passos lentos e sorrisos largos. Fui recebendo um a um com um abraço, enquanto me apresentava:

— Sou a Fabiana, filha da Martha.

Muitos diziam já me conhecer desde criança, embora eu não me lembrasse de todos.

Alguns vieram sozinhos, dirigindo; outros trouxeram filhos, netos e bisnetos. As mulheres, quase todas viúvas. Todos com mais de 80 anos; nenhum com cuidador.

Conversavam em pequenos grupos, viam fotos antigas e mostravam, orgulhosos, suas famílias pelo celular. Eu, de longe, observava e pensava em como o tempo pode ser generoso quando encontra gente que sabe viver a vida com entusiasmo.

Orlando, meu tio, contou a história do clube: dois primos adolescentes, nos anos 1950, fascinados pelos Harlem Globetrotters, resolveram criar sua própria versão brasileira. Mais do que basquete, buscavam atenção das meninas — e conseguiram.

Treinavam, ganhavam campeonatos escolares, viajavam para jogos estaduais, e as meninas participavam do time, das reuniões, das vitórias e das paixões.

Célia fez uma chamada de vídeo com a filha:

— Olhe, Ana, esta é a Flávia.

— Eu conheço a Flávia, mãe. Ela morava em frente à casa da vovó — respondeu a filha.

Flávia perguntou à Célia quantos anos tinha seu marido, Quimura.

— Acho que 87… não sei direito. Já perdi a conta — respondeu, rindo.

Paulo e Edgar contavam nos dedos os que já haviam morrido. José, rindo muito, disse que, se durarem muito, iriam morrer de hemorroidas.

— Desde a primeira festa já se foram a Carmelita, a Dorotéia, a Maroca, a Edileia, a Creusa, a Nice, o Arlindo, o Clóvis, o Ermelindo, o Zezinho… Quem mais?

Por um instante, tive a impressão de que todos sentiam a presença silenciosa dos que não estavam mais ali.

— E a Maria Luísa, vocês têm visto?

— Sim. Está com mais de 90. Não sai muito de casa, mas está superlúcida. Vive no Facebook.

Lina me ofereceu uma batida de coco:

— Tome, filhinha, está uma delícia. Bem feminina, bem fraquinha.

Durval, animado, comentou:

— Que bom ver gente jovem por aqui.

Os jovens, no caso, éramos nós: cinquenta, sessenta anos. Por essas e outras, me senti uma menina.

A música era ao vivo, com voz e teclado, e um repertório perfeito para o cenário: Roberto Carlos, Frank Sinatra, Julio Iglesias, Altemar Dutra. Tio Quimura, compadre do meu pai, me olhou com ternura quando os versos de Nelson Gonçalves ecoaram pela varanda. Vi nele o reflexo da amizade de uma vida inteira ao ouvir “naquela mesa está faltando ele e a saudade dele está doendo em mim”. Dói mesmo, em todos nós.

Nelsinho tirou as “moças” para dançar, como sempre fazia e disse:

— Isabel, Heloisa e Patrícia, façam uma fila e esperem sua vez.

Quando tocou “Fascinação”, dançou com Lina, sua esposa. Diná, ao longe, murmurou:

— Esses dois sempre foram apaixonados.

Pedro, que um dia fora louco por Yolanda, ao pensar em suas paixões do passado, riu ao lembrar que ela se casou com Cássio.

— Ainda bem — concluiu, com sábia tranquilidade e um certo desdém.

No meio da tarde, um barulho metálico cortou o ar. Um impacto seco. As pessoas correram até a churrasqueira.

— Ela caiu! Acudam! Martha, você está bem?

Mineiro, o “jovem” churrasqueiro, havia desmaiado de repente e, no movimento, derrubou minha mãe. Ela cortou a cabeça, o braço e queimou a mão ao se apoiar na grelha para se levantar. O susto gelou o ar por alguns segundos. Mas, depois dos curativos e da certeza de que tudo estava bem, a música voltou a tocar. Antônio, num ato solidário, assumiu a churrasqueira. Mineiro foi levado ao pronto-socorro; era apenas uma queda de pressão.

O clima de festa voltou à cena depois da piada feita por minha mãe:

— Fazia tempo que não sentia o peso de um homem sobre mim.

Continuei observando a cena de longe: velhos amigos dançando devagar, rindo alto, contando histórias repetidas que nunca cansavam. Me dei conta de como é raro ver esse tipo de amor persistente, que atravessa décadas sem perder a força e concluí que esse é um dos grandes aliados da saúde física e mental. Pude constatar o que vem sendo estudado há tempos por pesquisadores ligados à Gerontologia: a amizade exerce um papel fundamental no envelhecimento saudável. Mais até que a família. Parente é prata, amigo é ouro.

Amizade na velhice é fator de proteção psicossocial; contribui para maior senso de autonomia, pertencimento e bem-estar subjetivo; diminui os níveis de solidão, depressão e ansiedade; favorece a regulação emocional e o enfrentamento de perdas comuns nessa fase da vida, como a aposentadoria, problemas de saúde e o luto; melhora a saúde cardiovascular; encoraja a atividade física; aumenta a adesão a cuidados médicos; além de ser um mecanismo natural de estimulação intelectual, o que pode contribuir para a redução do risco de declínio cognitivo.

Assim, a amizade na velhice não apenas promove prazer e apoio emocional, mas também desempenha um papel central na manutenção da identidade, da saúde e do sentido de vida, sendo considerada um dos pilares do envelhecimento ativo e bem sucedido. E a festa do “Mocidade”, com tanta gente idosa exalando saúde, demonstrou ser a prova disso.

Quando o último convidado se despediu, minha mãe finalmente sentou, serviu-se do seu uísque preferido e respirou fundo. Havia nela um misto de cansaço, preocupação e gratidão por ter construído uma casa — e amizades — tão longevas.

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