
Por: Adalberto Luque
A Justiça Federal aceitou denúncia, na última semana, e passou a investigar três empresários que atuam no mercado financeiro de investimentos e teriam desviado valores de investidores. Já são seis os empresários investigados – um deles está preso e outro foragido – por golpes aplicados a partir de Ribeirão Preto, contra investidores que são atraídos por promessas de altos rendimentos.
A estratégia usada em todos os casos é a mesma. Os empresários usam de persuasão e promessas de ganhos acima dos praticados no mercado para atrair as vítimas. Quando se pede resgate, se o valor não for alto, eles providenciam de imediato. Mas se for alto, eles apresentam inúmeras desculpas para que os investidores não desconfiem.
O mais recente caso
A Justiça Federal aceitou denúncia contra Breno Pignata, Felipe Rassi e Edilson Games, empresários de Ribeirão Preto (SP), acusados de causar prejuízos a investidores e de realizar operações financeiras sem autorização do sistema financeiro nacional. Segundo o processo, mais de 600 pessoas aplicaram recursos na Mercatore e na Meca Investimentos, atraídas por promessas de rentabilidade acima da média, mas ficaram sem acesso aos rendimentos e aos valores investidos.
De acordo com a denúncia do Ministério Público Federal, os acusados captaram recursos oferecendo promessas de ganhos elevados, prejuízos limitados e um suposto “fundo garantidor próprio”, mas posteriormente impediram os resgates. A Polícia Federal identificou ao menos 527 transações, entre julho de 2018 e novembro de 2021, realizadas em desacordo com os contratos.
Parte dos valores foi direcionada a empresas de capital fechado ligadas direta ou indiretamente aos denunciados, sem retorno aos investidores, e outra parte aplicada em operações de alto risco na Bolsa, resultando em prejuízo de R$ 16,1 milhões. A denúncia aponta que, apesar de alguns resgates parciais, a maioria dos investidores perdeu parte ou a totalidade do patrimônio quando a Mercatore encerrou as atividades.
Segundo o MPF, os problemas continuaram na Meca Investimentos, para onde foram levados clientes da Mercatore, apesar da existência de relação entre as duas empresas. Ao final das investigações, os empresários foram denunciados por atuar como assessores de investimento sem autorização, gestão temerária e apropriação indébita, com a acusação de que as empresas funcionavam como instituições financeiras clandestinas.
Vaticano
Em janeiro de 2025, outra queixa. O empresário Eduardo Scatambulo Ribeiro foi denunciado à Polícia Civil por clientes do Tresory Bank sob suspeita de estelionato. Ele se apresenta nas redes sociais como especialista no mercado financeiro, com experiência em operações internacionais e soluções personalizadas.

Clientes relatam investimentos que chegam a R$ 500 mil, com promessa de rendimentos mensais de 2%. Segundo os depoimentos, após atrasos nos pagamentos, cobranças e tentativas de resgate do capital e dos lucros, a comunicação teria sido interrompida. As queixas se estendem desde o fim de 2024, sem devolução dos valores.
De acordo com o perfil profissional, Scatambulo é formado em administração desde 2017, com passagens pelo varejo, por um banco digital e por um escritório de finanças, além de atuação como agente comercial de um grande banco em Belo Horizonte (MG). Desde janeiro de 2018, ele se apresenta como CEO do Tresory Bank. Documento da Junta Comercial do Estado de São Paulo aponta que ele assumiu a presidência da empresa em junho de 2023, após renúncia da diretoria anterior. O nome Tresory Bank passou a constar na documentação em maio de 2023, após alteração do objeto social para instituição de pagamentos. Sua sede social é na zona Sul da Capital.

O Tresory Bank se define como banco digital voltado a pequenas e médias empresas, oferecendo conta digital, cartão de crédito, acesso a crédito, investimentos e criptomoedas, entre outros serviços. Os dados da empresa não constam na relação de instituições autorizadas, reguladas ou supervisionadas pelo Banco Central do Brasil. Em 2023, o banco digital venceu uma premiação regional na categoria negócio revelação.
Entre os relatos, clientes afirmam que os atrasos eram justificados com a alegação de que recursos estariam em conta no exterior, ligados a um suposto serviço prestado ao Vaticano envolvendo doações em criptomoedas e o recebimento de comissão em euros. Ele chegou a apresentar um suposto extrato às vítimas.

Contratos indicam como endereço do empresário um condomínio de alto padrão em Bonfim Paulista, zona Sul de Ribeirão Preto. Depoimentos também apontam que Scatambulo afirmava realizar viagens frequentes ao exterior, citando países como Dubai, Itália e Portugal. A suspeita é que ele esteja no exterior.
Vítimas foram tornadas sócias
O empresário Frederico Goz Biagi foi preso pela Polícia Federal no dia 4 de dezembro de 2025. Ele atuava por meio de uma consultoria financeira com base em Ribeirão Preto, mas foi detido em Poços de Caldas (MG). Ele operava no setor ao menos desde 2010 e, em maio de 2023, teria criado a própria empresa, em sociedade com pessoas que desconheciam a fraude.

Segundo a investigação, Goz Biagi selecionava vítimas com bom poder aquisitivo, utilizava técnicas de engenharia social para se aproximar delas e prometia rendimentos mensais entre 1,5% e 2%. Para manter a confiança, realizava pagamentos quando havia pedidos de resgate e dificultava o acesso às informações. Os valores captados eram usados em proveito próprio, inclusive em operações de “day trade”, que resultaram em perdas. O prejuízo já apurado é de R$ 11 milhões.
A maioria das vítimas é de Ribeirão Preto, mas há casos em outras cidades, como Campinas. Informações falsas de rendimento teriam sido usadas até em declarações de Imposto de Renda. Pelo menos dez pessoas relataram prejuízos. A Polícia Federal deflagrou a Operação Stop Loss, com mandados cumpridos em Ribeirão Preto, São Paulo, Rio de Janeiro e Poços de Caldas. O investigado responderá por diversos crimes financeiros, com penas que podem chegar a 37 anos de reclusão.
O pioneiro
O primeiro caso investigado por golpes aplicados a partir de Ribeirão Preto completa, no próximo mês, três anos. A Polícia Civil de São Paulo concluiu que a B&B Capital, escritório de investimentos com sede em Ribeirão Preto, operava um esquema de pirâmide financeira. Segundo o inquérito, cerca de R$ 40 milhões aportados por 227 investidores não foram aplicados no mercado financeiro, como prometido. A investigação apontou que os recursos eram usados para pagar resgates de clientes antigos e para o enriquecimento dos gestores. O principal investigado, André Luiz de Jesus Rosa, sócio da empresa, está foragido desde março de 2023.

Ele e outros quatro envolvidos foram indiciados por estelionato e associação criminosa, com dois mandados de prisão pendentes. As vítimas denunciaram o caso ao Ministério Público no início de 2023, relatando promessas de retorno mensal fixo de 2,5% em supostas operações financeiras. Extratos bancários revelaram movimentações atípicas e indícios de manipulação contábil.
A polícia constatou que não havia registros oficiais de investimentos em corretoras ou bolsas, apesar das garantias contratuais. Com a conclusão do laudo técnico, o Ministério Público poderá formalizar a denúncia e identificar os beneficiários do esquema, além de subsidiar eventuais ações judiciais de ressarcimento.
A reportagem não conseguiu contato com a defesa de nenhum dos seis envolvidos. Mas caso seja procurada, coloca o jornal à disposição para a manifestação de cada um.

