
Por: Adalberto Luque
Priscila Belfort, então com 29 anos, acordou com cólica e indisposta na sexta-feira, 9 de janeiro de 2004. Irmã do lutador Vitor Belfort, Priscila seguiu para o trabalho de carona com a mãe Jovita. Era funcionária pública na Secretaria Municipal de Esportes e Lazer do Rio de Janeiro. Chegou ao prédio da avenida Presidente Vargas, região central do Rio de Janeiro por volta de 11h00. Deu alguns telefonemas e, por volta de 13h00, saiu para almoçar. Foi vista por um colega de trabalho pela última vez pouco depois caminhando desatenta, na avenida Marechal Floriano Peixoto, próxima à Secretaria.
Foi a última vez que Priscila foi vista. A família divulgou fotos, o irmão divulgou o fato em seu site. A investigação tomou diversos rumos. Sequestro, homicídio, fuga, nada levou até Priscila.
Não houve pedido de resgate. Várias pessoas diziam ter visto a jovem em lugares diferentes e distantes. Para a Polícia, ela pode estar morta. Para a família, a esperança é que esteja viva, já que já havia sofrido lapsos de memória no passado, não a ponto de deixar de manter contato com a família. Há 21 anos, é um dos casos de desaparecimento mais famosos do País.

O Brasil registrou 84.760 casos de desaparecimento de pessoas em 2025. São 232 histórias interrompidas por dia, 232 famílias lançadas à incerteza diária sobre o paradeiro de um filho, de uma mãe, de um irmão. O total representa alta de 4,1% em relação a 2024, quando foram contabilizados 81.406 registros, segundo dados do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp), divulgados pela Agência Brasil.
Nem mesmo a criação da Política Nacional de Busca de Pessoas Desaparecidas, em 2019, foi suficiente para frear o avanço dos números. Naquele ano, foram 81.306 ocorrências — resultado 4,2% inferior ao registrado em 2025. Desde 2015, quando houve 75.916 notificações, o país só viu recuo em 2020 (63.151) e 2021 (67.362), período marcado pelas restrições da pandemia de covid-19.
Especialistas atribuem essa queda às limitações de circulação e ao acesso reduzido às delegacias, o que ampliou a subnotificação. “Há um consenso de que esta queda momentânea foi causada pela pandemia, pelo fato de as pessoas terem que ficar em casa”, afirmou à Agência Brasil a coordenadora do Observatório de Desaparecimento de Pessoas no Brasil (ObDes), da Universidade de Brasília (UnB), Simone Rodrigues.
Localizações
Se por um lado o número de desaparecimentos cresce, por outro também aumentam os registros de pessoas localizadas. Em 2020, reapareceram ou foram encontradas 37.561 pessoas. Em 2025, o total chegou a 56.688 — alta de 51% no período e de 2% em relação a 2024, quando 55.530 foram localizadas.
Para Simone Rodrigues, o avanço reflete tanto o aumento das notificações quanto o aprimoramento das estratégias de busca. Ela declarou à Agência Brasil que observa maior empenho recente na interoperabilidade de dados e na comunicação entre instituições federais, estaduais e municipais.
Ainda assim, a especialista alerta que os números não traduzem toda a dimensão do problema. Muitos desaparecimentos, segundo ela, estão associados a crimes não esclarecidos, como feminicídios, tráfico de pessoas, trabalho análogo à escravidão, LGBTQfobia e ocultação de cadáveres.
O caso da corretora Daiane Alves de Souza, 43 anos, em Caldas Novas (GO), ilustra a complexidade. Ela desapareceu em 17 de dezembro de 2025, após descer ao subsolo do condomínio onde morava para verificar uma queda de energia no prédio. Câmeras a mostraram no elevador, mas ela não foi mais vista depois disso. O caso ganhou grande repercussão pelo mistério em torno do sumiço e pelo histórico de desavenças entre Daiane e o síndico do prédio, Cléber Rosa de Oliveira.

Após 43 dias de buscas, o corpo de Daiane foi localizado em uma área de mata em Caldas Novas em 28 de janeiro de 2026. A identificação teve confirmação por DNA. Cleber foi preso preventivamente no mesmo dia. A investigação apontou que ela foi emboscada e morta com dois tiros na cabeça no mesmo dia do desaparecimento, e que o síndico teria planejado o crime após atritos com a vítima.
O caso agora segue na Justiça: a Justiça de Goiás tornou Cléber réu por homicídio qualificado e ocultação de cadáver, com acusação de que ele agiu por motivo torpe, usando emboscada e meio cruel.
Subnotificação
Simone também destacou à Agência Brasil que há situações em que o medo ou a vulnerabilidade impedem o registro formal do desaparecimento. Em áreas com atuação de milícias ou outros grupos criminosos, familiares evitam procurar a polícia.
Povos indígenas e pessoas em situação de rua também enfrentam barreiras para registrar ocorrências. “Daí que, mesmo que surpreendentes, os números não são fidedignos, pois há subnotificação”, afirmou.
Infância
Entre os 84.760 casos registrados em 2025, 23.919 envolveram crianças e adolescentes — 28% do total. Em média, 66 boletins de ocorrência por dia trataram do sumiço de menores de 18 anos. O número representa aumento de 8% em relação a 2024, quando foram notificados 22.092 casos, percentual duas vezes superior ao crescimento geral.
Em comparação com 2019, quando 27.730 ocorrências envolveram esse público, o resultado mais recente é 14% inferior, mas mantém tendência de alta iniciada em 2023, com 20.445 denúncias.
Embora os homens representem 64% do total de desaparecidos, entre crianças e adolescentes a maioria — 62% — é de meninas. Para Simone Rodrigues, parte desses casos pode estar ligada a contextos de violência intrafamiliar. Ela afirmou à Agência Brasil que o poder público precisa agir com sensibilidade, evitando expor novamente a vítima ao ambiente que motivou a fuga. Ao mesmo tempo, ponderou que não se deve generalizar as situações.

“Não importa a causa. O Estado tem a obrigação de buscar qualquer pessoa desaparecida, principalmente crianças e adolescentes, sem incorrer em estereótipos ou prejulgar o responsável que vai registrar o desaparecimento”, declarou.
Desde 2019, a legislação brasileira reconhece como desaparecida qualquer pessoa cujo paradeiro seja desconhecido, independentemente da causa, até que haja confirmação de recuperação ou identificação por meios físicos ou científicos.
Especialistas classificam os desaparecimentos em categorias como voluntário, involuntário sem violência e forçado. Simone acrescentou à Agência Brasil que também considera o chamado “desaparecimento estratégico”, quando a pessoa se afasta para sobreviver, como no caso de mulheres que fogem de parceiros abusivos ou crianças vítimas de maus-tratos.
Dados do Mapa dos Desaparecidos no Brasil, elaborado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, apontam que a maior parte das ocorrências acontece entre sexta-feira e domingo.
A angústia por trás dos números pode ser medida em relatos como o do pintor Leandro Barboza, de Curitiba (PR), que procurou a polícia após o filho, de 10 anos, sair de casa em 27 de dezembro do ano passado. O menino foi localizado três dias depois, por um idoso que reconheceu o alerta de desaparecimento nas redes sociais e acionou a polícia.
À Agência Brasil, Leandro descreveu o período como uma agonia permanente. Ele contou que passou a noite percorrendo o bairro, batendo de porta em porta, temendo o pior. O menino relatou que havia se afastado para brincar, perdeu a noção do tempo e, ao perceber que já era noite, teve medo de voltar para casa.
“É uma agonia que só quem passa dá conta de dizer”, afirmou o pai, ao lembrar das horas em que imaginou hipóteses como sequestro ou morte. Ele também relatou ter sido alertado, na delegacia, de que poderia ser responsabilizado pelo sumiço do filho, embora tenha reconhecido que, de modo geral, foi bem atendido.
Leandro defendeu que famílias nessa situação recebam apoio psicológico para lidar com o impacto emocional. Segundo ele, por enquanto, o filho o acompanha durante o trabalho.
Estrutura
A Política Nacional de Busca de Pessoas Desaparecidas foi criada para integrar ações e agilizar a localização de desaparecidos. Para Simone Rodrigues, porém, a implementação ainda ocorre de forma lenta e necessita de ajustes. Ela observou à Agência Brasil que o Cadastro Nacional de Pessoas Desaparecidas, considerado o principal instrumento da política, só foi criado em 2025.
De acordo com a Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp), 12 das 27 unidades da federação estão integradas ao cadastro: Acre, Alagoas, Amapá, Amazonas, Bahia, Maranhão, Piauí, Rio Grande do Norte, Rondônia, Roraima, Sergipe e Tocantins.
A especialista aponta fragmentação de informações, ausência de identidade nacional unificada e bancos de dados biométricos separados por estado. Em casos de corpos não identificados, é necessário enviar digitais às 27 unidades federativas para eventual conferência.
Ela também destacou que ainda persiste o equívoco de que é preciso aguardar 24 ou 48 horas para registrar o desaparecimento, o que não é exigido por lei. Estereótipos sobre o comportamento de adolescentes também podem atrasar a mobilização.
Procurado pela Agência Brasil, o Ministério da Justiça e Segurança Pública reconheceu a subnotificação, mas ponderou que o aumento de 4% não significa necessariamente crescimento real dos casos. Segundo a pasta, classificar as diferentes causas é um desafio estatístico que depende de apuração minuciosa e padronização de dados.
O ministério informou que tem investido na estruturação da política, com ações como o lançamento do cadastro nacional, capacitação de profissionais das polícias civis, campanhas de coleta de DNA de familiares e campanhas de comunicação. Quanto à adesão parcial dos estados, manifestou expectativa de integrar as demais unidades federativas ainda no primeiro semestre de 2026.
Enquanto os sistemas são aprimorados e as estatísticas seguem atualizadas, milhares de famílias continuam vivendo a espera — sem respostas definitivas, sustentadas pela esperança de que o próximo registro de “pessoa localizada” seja o nome que procuram. E torcendo para que a foto estampada numa caixa de leite longa vida de uma marca que abraçou a campanha dê resultados e o ente querido seja encontrado.
Prioridade absoluta em Ribeirão Preto
Em Ribeirão Preto, os casos de desaparecimento são investigados com prioridade absoluta, por se tratar de um sintoma primário de diversas vulnerabilidades, desde conflitos domésticos até ocorrência de crimes graves. A afirmação é do delegado Fernando Teixeira Bravo, da Delegacia de Homicídios da Divisão Especializada de Investigações Criminais (DEIC) de Ribeirão Preto. É o setor responsável por investigar todos os casos de desaparecimento na cidade e região.
Segundo ele, a análise dos dados apresentados pela Agência Brasil revela um cenário que exige uma interpretação técnica e cautelosa por parte da Polícia Judiciária em Ribeirão Preto. O delegado acrescenta que o fenômeno do desaparecimento não constitui um tipo penal autônomo, mas um fato atípico que faz com que seja utilizado o Procedimento de Investigação de Desaparecimento de Pessoa.

“Os índices locais acompanham a complexidade socioeconômica de um polo regional de grande magnitude, havendo um monitoramento ininterrupto através do Sistema de Informações Criminais. Importa salientar que uma parcela significativa dos registros que permanecem formalmente ‘abertos’ decorre da omissão das famílias em comunicar o retorno do indivíduo ao lar, o que demanda um esforço hercúleo de saneamento dos bancos de dados por parte do nosso setor de inteligência para que a estatística reflita a real periculosidade social”, explica o delegado.
Bravo revela que a atuação da Polícia Civil em Ribeirão Preto está pautada na “Janela de Ouro” da investigação, compreendendo que o tempo é um fator determinante para a preservação da vida. “Nesse sentido, aplicamos rigorosamente o que preceitua a Lei nº 11.259/2005, a chamada Lei da Busca Imediata, que extirpou do ordenamento jurídico qualquer necessidade de aguardar prazos de 24 ou 48 horas para o início das diligências, especialmente quando envolvem crianças e adolescentes.”
Para o responsável pela Delegacia de Homicídios de Ribeirão Preto, a classificação proposta pela Agência Brasil tem sua concordância por segmentar desaparecimentos voluntários, involuntários e forçados. Em relação à constatação de que 30% dos casos envolvem menores, com prevalência do gênero feminino, Bravo entente que é necessário reforçar o princípio da proteção integral previsto na Constituição Federal e no Estatuto da Criança e do Adolescente.
“Em Ribeirão Preto, a investigação busca identificar rapidamente se o afastamento decorre de uma decisão individual do sujeito, de um fator externo de saúde, como surtos psicóticos ou patologias degenerativas, ou se há indícios de intervenção criminosa”, explica.
De acordo com Bravo, embora a maioria dos casos se resolva com o encontro da pessoa com viva, a Delegacia de Homicídios mantém vigilância sobre as situações que podem configurar um conjunto de e4tapas percorridas pelo autor de um crime, desde sua idealização até sua concretização.
“O desaparecimento é, em certos cenários, o prelúdio da descoberta de um homicídio em que o autor visou a impunidade por meio da ocultação de cadáver, conforme tipificado no Artigo 211 do Código Penal. Nosso objetivo técnico é a exaustão das diligências para que nenhum desaparecimento permaneça sem uma resposta jurídica clara, seja pela localização do indivíduo ou pela responsabilização criminal de eventuais autores”, conclui o delegado.

