Idosa foi internada com quadro grave de miíase oral em hospital e segue sem previsão de alta. Familiares que estiveram no hospital se revoltaram também com nota divulgada pela prefeitura e matérias de portal e TV locais
Adalberto Luque
Uma casa de repouso foi interditada, no final da tarde de quarta-feira, 25 de março, por operar de forma irregular, sem alvará de funcionamento expedido pela prefeitura de Ribeirão Preto. O local foi fechado depois deMunicipal da Saúde a idosa, Nair Ramos, de 87 anos, ser retirada da clínica pela família e levada em estado grave – com infecção por larvas na boca – para a Santa Casa de Misericórdia, nos Campos Elíseos, Zona Norte da cidade.
Após análise clínica do quadro da idosa, familiares resolveram denunciar a clínica. Uma operação conjunta entre Ministério Público de São Paulo (MPSP), Delegacia Seccional de Polícia e Prefeitura de Ribeirão Preto, por meio da Secretaria Municipal de Saúde, visitou a Instituição de Longa Permanência para Idosos (ILPI), na rua Padre Anchieta, Monte Alegre, Zona Oeste.
Segundo o secretário municipal de Saúde, Maurício Godinho, além da idosa de 87 anos, outras onze pessoas estavam na casa de repouso com apenas uma cuidadora. “Era muito claro que a falta de cuidados é o que acontecia ali. Inclusive na questão de medicamentos, o que muito preocupa a gente”, diz .

“A falta de segurança com os medicamentos. Eram medicamentos já abertos, em copinhos, sem identificação alguma. O risco de troca de medicamentos é muito grande”, explica Godinho.
Diante da situação, agentes da Delegacia do Idoso e da Secretaria de Assistência Social fizeram o levantamento das famílias. Além da mulher já internada, outros dois idosos foram encaminhados para unidades hospitalares. Um deles foi levado para um hospital particular e o outro para uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA).
Os familiares de outros nove idosos decidiram retirá-los da clínica. Uma senhora que chegou a ficar sob cuidados de profissionais da Secretaria de Assistência Social e de um técnico de enfermagem.
“A clínica foi fechada e foi instaurado um inquérito na Delegacia do Idoso”, informou o secretário de Saúde. Em nota, a Prefeitura de Ribeirão Preto confirmou a interdição e informou que a Secretaria de Assistência Social atua na identificação e localização de familiares ou responsáveis legais dessa idosa.
“A Vigilância Sanitária estabeleceu prazo de dez dias para a regularização, conforme as exigências legais vigentes.” A reportagem entrou em contato com os responsáveis pela casa de repouso, mas não teve retorno. O espaço segue aberto para manifestação.
Infecção grave – A família da idosa de 87 anos internada na Santa Casa diz que ela estava na instituição havia dois anos. “Neste período, eles mudaram duas vezes. No começo, havia vários funcionários. Teve até festa de Natal, e sentíamos que ela estava sendo bem cuidada. Depois da mudança, percebemos que houve uma grande redução no número de funcionários”, explica uma neta.
Nas visitas, os familiares relatam que havia pressa para que eles saíssem. Na frente da casa de repouso, nenhuma identificação indicava que o local era uma instituição de longa permanência para idosos. Um neto chegou a questionar feridas na boca da idosa, mas a cuidadora disse que seria pelo fato de ela ficar com a boca aberta, o que ressecaria a região, e que aplicariam hidratante.
“Ela entrou e, aos poucos, foi perdendo sua mobilidade e se expressava cada vez menos. Se ela tivesse dito, teríamos tirado ela de lá na hora”, lamenta o familiar. Ela chegou a ser levada para uma UPA, mas seguiu para a Santa Casa, onde foi diagnosticada com quadro grave de miíase oral.
Em sua boca, havia larvas, também conhecidas por bigatos. A neta contou que a situação é tão grave que a idosa precisou passar por cirurgia. “Graças a Deus, sem intercorrências. Ela segue internada na Santa Casa para recuperação, sem previsão de alta”, diz.
A família conversou com a assistente social do hospital, que confirmou a gravidade do quadro. Segundo relato, o próprio hospital estaria entrando com denúncia contra a clínica e teria orientado os familiares a ingressar com ação por negligência, formalizando denúncia junto ao Ministério da Saúde.
“Isso é muito revoltante, porque o problema não era simplesmente ela ‘não querer comer’, como foi informado. Existe um quadro sério que não foi comunicado e que claramente se desenvolveu ao longo do tempo por falta de higiene e ausência de cuidados básicos, ou seja, falha direta da instituição em cumprir o papel dela.”
A família afirma que colocou a idosa na clínica justamente para que recebesse cuidados adequados, acompanhamento constante e dignidade, já que todos trabalham e alguns moram em outra cidade, não havendo condições de garantir esse cuidado integral em casa.
“Confiamos na instituição para isso e essa confiança foi quebrada da pior forma possível. Além disso, houve omissão por parte da clínica em nos informar o que realmente estava acontecendo e também demora em encaminhá-la ao hospital, mesmo ela já estando com dor.” A família pretende acionar a clínica na Justiça. Uma advogada já foi designada para ingressar com o processo no Judiciário.
Dupla revolta dos familiares – Na noite desta quinta-feira os familiares da idosa Nair Ramos, relataram ao Tribuna a revolta não apenas com o descaso e os maus tratos na clínica, mas também com uma nota divulgada pela assessoria de imprensa da Secretaria de Saúde, além de informações inverídicas passadas pela Santa Casa.
“Alguém do hospital informou a prefeitura que nenhum parente acompanhou nossa tia na Santa Casa, o que é uma mentira. Desde a denúncia feita por nós, até a internação, estivemos em cinco pessoas ao lado dela Durante todo dia e à noite, nos horários permitidos, estávamos nos revezando . Faltou responsabilidade e ética em quem passou tal informação a Secretaria de Saúde, que por sua vez também não teve o cuidado ao emitir nota verdadeira a imprensa, dizendo que nenhum parente havia estado no hospital” disse Vinícius Ramos, integrante da família.
‘O portal G1 e o Jornal da Clube, na sua segunda edição, entraram nessa fake news e a família está sofrendo um lixamento moral nas redes sociais por um suposto descaso e abandono, o que é uma inverdade. Se já não bastasse o sofrimento com o que aconteceu com ela, essa mentira em forma de reportagem e nota mal elaborada vem causando um estrago, como se fossemos negligentes com ela. Sendo que fomos nós quem denunciamos ao Ministério Público e as autoridades”, afirmou.
“O que mais queremos é a recuperação dela e a retratação de quem publicou inverdades, pois até os prontuários mostram as visitas foram feitas logo após a cirurgia e todos da família se cotizaram para mantê-la em um lugar que, até então, julgávamos ser adequado”, completou.
Nair Ramos não tem filhos e apenas afilhados dão assistência pagando a clínica e fornecendo fraldas e outros itens que eram solicitados.
Até a publicação desta matéria, os responsáveis pela clínica não atenderam aos familiares e teriam deixado a cidade. O Tribuna pediu esclarecimentos a Secretaria Municipal Da Saúde, mas até o fechamento desta matéria não obteve retorno.
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