Barracão de cima: os primeiros contornos do Ipiranga

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Sônia Maria Girotto, 95 anos, nasceu, cresceu e ainda vive no Ipiranga, a dez quarteirões da estação Barracão. Sua história e a de sua família se confundem com aquela porta de entrada dos imigrantes italianos em Ribeirão Preto e com a história do próprio bairro que recebeu os trabalhadores estrangeiros que vinham em busca de melhores condições de vida. Pela estação chegavam famílias inteiras e já eram direcionadas a trabalhar nas fazendas ou se estabelecer por ali mesmo.

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Neta de imigrantes italianos que vieram para o Brasil trabalhar nas fazendas de café, Sônia conta que seus avós, Guerino Girotto e Antonia Borsato Girotto, chegaram ao Brasil em junho de 1887 e desembarcaram na estação Barracão em 8 de outubro do mesmo ano. Vieram com os quatro filhos em busca de uma vida melhor daquela que tinham na Itália, onde a fome era parte do cotidiano de praticamente toda a população.

“Meus dois avós paterno e materno vieram como imigrantes e vieram morar aqui […] eles vieram por causa de uma grande guerra; eles estavam passando muita fome lá e morrendo muitos”. 

Passaporte italiano de Guerino Girotto, avô de Sônia (Foto: Arquivo pessoal de Sônia Girotto)

Para chegar à cidade, a família passou dois meses e meio em um navio até desembarcar no porto de Santos e, de lá, fazer todo o trajeto de trem até Ribeirão. Já aqui, os Girotto passaram a trabalhar para os donos das fazendas em troca de receber um pedaço de terra onde pudessem produzir seu próprio alimento. 

“Esses italianos povoaram aqui. Mas, eles tinham que trabalhar com contrato. Trabalhavam três dias de graça para o Governo [na realidade, era para os donos das terras] e dois dias no próprio terreno. Eles tinham que fazer ele [o terreno] produzir, porque eles não tinham comida, né? Aí, eles tinham que pagar os terrenos, né? Pagar os terrenos com serviço.”

Essas terras eram negociadas diretamente com os fazendeiros, sendo as condições de trabalho e posse dos territórios decididas pelos proprietários das terras, sem muita interferência do governo ou da prefeitura, gerando assim acordos que lesavam os imigrantes, ocasionando em revoltas.

 “Tudo isso já era negociado diretamente com o fazendeiro […] Através dessas negociações e por ser negociado diretamente com o fazendeiro, às vezes o fazendeiro tomava algumas vantagens, não respeitava alguns direitos trabalhistas e muitos [imigrantes] até fizeram greves ou saíram de Ribeirão.”, explica Thales Eduardo Sposito, professor de História e arte educador no Museu Casa da Memória Italiana.

Ao lado dos Girotto, outras famílias foram se estabelecendo ali nas imediações da estação, trabalhando em seus próprios terrenos e começando a criar seus negócios. Foi assim também com os Borsato, conta dona Sônia, referindo-se à família da sua avó paterna. Os imigrantes costumavam vir em grupos de conhecidos, parentes.

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Família Girotto em frente à casa que eles construíram no Ipiranga (Foto: Arquivo pessoal de Sônia Girotto)

O território foi gradualmente sendo ocupado por essas famílias, em sua maioria de origem humilde, não apenas italianas, mas também imigrantes asiáticos, por famílias indígenas e negras que, após a abolição da escravatura, buscavam um lugar para se estabelecer. O principal destino em Ribeirão Preto era o Ipiranga, tornando o Barracão uma estação intermediária entre as famílias e a iminente expansão do bairro. 

Tendo sido inaugurada em junho de 1887, o Barracão, uma das estações da cidade, era tão importante que chegou a dar nome ao bairro que estava sendo construído pelos próprios italianos. Era o “Barracão de Cima”, até que na década de 1960 o radialista Antônio Magrini fez uma votação com a população que decidiu alterar o nome para Ipiranga. 

Trilhos e memórias

Em junho de 2026, o Ipiranga comemora o legado de 139 anos, tornando-o um dos bairros mais antigos da cidade. O território se desenvolveu a partir do Núcleo Colonial Senador Antônio Prado, criado em 1887 e ocupava os territórios dos atuais Ipiranga, Campos Elíseos, Vila Virgínia e Vila Tibério.

A estação Barracão separava o Ipiranga e os Campos Elíseos, este sendo chamado na época Barracão de Baixo. Com o auxílio da estação ferroviária que constantemente trazia novos imigrantes, rapidamente se tornou um dos bairros com a maior densidade populacional da cidade.

Como ponto inicial do bairro, o Barracão adquiriu uma importância cultural e histórica para os moradores. Maria de Lourdes Fonzar Teodoro, 73 anos, funcionária da Escola Municipal de Ensino Fundamental Alfeu Luiz Gasparini, localizada ao lado da estação, relata sobre as memórias que tem daquela época. Ela conta sobre a saudade que sente de ouvir barulho do trem e vê-lo passar.

Passava o trem, ele apitava e os carros tinham que parar. O trem cruzava a Dom Pedro e parava o trânsito. Tinha os caras [responsáveis] por abrir e fechar a cancela.”

A estação se fazia presente no cotidiano de todos que viviam nos arredores. “Eu senti muito de tirar [os trens] porque era nossa diversão o barulho do trem. Eu nunca mais fui lá [depois que a estação foi desativada]. Sabe quando ‘cê’ perde o interesse? Eu perdi o interesse”, confessa Maria de Lourdes. 

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Estação Barracão desativada e em estado de abandono em maio de 2026 (Foto:  Eduardo Motta)

Em 1977, a estação já não operava o transporte de passageiros, tendo passado a ser utilizada apenas para transporte de carga, mas só em 2011 a estação foi oficialmente desativada.

Hoje, o Barracão se encontra abandonado e a prefeitura demonstra intenção de restaurar o patrimônio histórico, como informa o secretário de Governo, Jean Vicente. “A nossa expectativa é fazer uma grande restauração primeiro. Então, a partir do momento que tivermos posse do prédio, a gente começa um projeto para captar recursos para a restauração”. 

O secretário diz que a prefeitura ainda não tem noção de quanto será investido, pois ainda deverá ser elaborado o projeto executivo. “[…] Apresentar um modelo adequado, que tem tanto o Museu, porque tem um acervo muito rico ferroviário, mas também é uma área que pode ser explorada com restaurantes, com lanchonetes, para atrair turistas”, complementa o secretário.

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Vozes da Nossa Gente

O projeto Vozes da Nossa Gente é um projeto multiplataforma acidade on Ribeirão em parceria com o curso de Jornalismo da Unaerp.

Com foco no jornalismo hiperlocal e buscando uma maior conexão com a comunidade, o “Vozes da Nossa Gente” pretende inspirar com boas histórias, que serão contadas de maneira humanizada pelos moradores de oito bairros de Ribeirão Preto.

Esta produção é dos alunos do curso de Jornalismo da Unaerp Eduardo Motta, Izabella Cavalcante e Mirella Archangelo, sob supervisão dos professores Gil Santiago, Guilherme Nali e Elivanete Zuppolini Barbi.

Uma iniciativa do acidade on em parceria com os alunos da 3a etapa de Jornalismo da Unaerp.

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