Pilotos compararam 
aeronave a ‘fusquinha’

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Laudo revela que pilotos sabiam sobre a falha no sistema de degelo e compararam a aeronave a um “fusquinha”

O laudo da Polícia Federal (PF) sobre a queda do avião da Voepass Linhas Aéreas em Vinhedo SP), que causou a morte de 62 pessoas, revela que os pilotos sabiam sobre a falha no sistema de degelo e compararam a aeronave a um “fusquinha”. O laudo foi revelado nesta quarta-feira, 5 de agosto, mas deve ser divulgado oficialmente nesta quinta (6).

A investigação foi feita com base na análise do relatório final do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), que apontou falhas da empresa, da aeronave, dos pilotos e da própria agência reguladora no acidente que matou 62 pessoas.
Segundo a PF, a causa do acidente foi a perda de controle em voo causada pelo acúmulo de gelo na aeronave, da inoperância do sistema pneumático de degelo do avião e da não execução tempestiva e adequada de cinco procedimentos necessários.

A PF destaca que a tripulação estava habilitada para operar a aeronave e que o último treinamento realizado tiveram resultados satisfatórios para os procedimentos. A Voepass disse em nota que vai aguardar a divulgação do laudo para se manifestar.

“Não é possível determinar a razão da não execução adequada desses procedimentos ante a emergência enfrentada no voo”, concluiu a corporação. Porém, destaca que a falha no degelo tivesse sido reportada, o avião não poderia entrar em operação e decolar de Cascavel.

O Cenipa concluiu que a queda do ATR 72-500 foi resultado da combinação de 19 fatores técnicos, operacionais, organizacionais e regulatórios que permitiram a degradação progressiva das condições de segurança da aeronave. O relatório cita falhas da companhia, da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) e dos dois pilotos e diz que o avião não poderia ter decolado.

Segundo o órgão ligado á Força Aérea Brasileira (FAB), o avião não deveria ter decolado do Aeroporto de Cascavel (PR) com destino a Guarulhos (SP). A comissão concluiu que a repetição frequente de alertas e avisos em voos anteriores gerou complacência entre pilotos da empresa, reduzindo a vigilância operacional diante de situações potencialmente críticas.

Relembre o caso – O voo 2283 da Voepass caiu há cerca de dois anos, em 9 de agosto de 2024, em Vinhedo (SP), matando os 58 passageiros e quatro tripulantes. O ATR 72-500, matrícula PS-VPB, decolou do Aeroporto Coronel Adalberto Mendes da Silva, em Cascavel (PR), às 11h58, com destino ao Aeroporto Internacional de Guarulhos (SP).

Por volta das 13h21, quando iniciava os procedimentos de aproximação para pouso, a aeronave perdeu altitude, entrou em espiral e caiu sobre um condomínio residencial. O impacto provocou explosão e incêndio. Todos os ocupantes morreram. Não houve vítimas em solo.

Após o acidente, a Anac cassou o certificado de operador aéreo da Voepass. Paralelamente, o Cenipa iniciou a investigação para apontar os fatores que contribuíram para a tragédia, enquanto a Polícia Federal instaurou inquérito para apurar eventual responsabilidade criminal.

Vítimas – Dentre as 62 vítimas, estavam três pessoas com forte ligação com Ribeirão Preto. A comissária de bordo Rúbia Silva de Lima, de 41 anos, nasceu e morava na cidade, em Bonfim Paulista. A médica Sarah Sella Langer atuou na rede municipal de Saúde entre os anos de 2017 e 2022. O comandante Danilo Santos Romano, de 35 anos, era casado com a bancária ribeirão-pretana Thalita Machado Santana, de 31 anos.

Também morreram o copiloto Humberto de Campos Alencar e Silva, de 61 anos, e a comissária Débora Soper Ávila, de 28 anos. A comissária de bordo Rúbia Silva de Lima foi sepultada em 17 de agosto de 2024, em Ribeirão Preto. Ela trabalhava na Voepass havia 14 anos.

O acidente com o ATR-72 500 da Voepass foi o primeiro com vítimas em solo brasileiro desde o caso do avião da TAM que fazia o voo 3054, em 17 de julho de 2007 – a aeronave saiu de Porto Alegre (RS) e chocou-se contra um prédio da própria companhia depois de derrapar na pista do Aeroporto de Congonhas. Morreram 199 pessoas, 187 a bordo e doze em terra, a maior tragédia da aviação em território nacional.

Diálogo –
Em um dos diálogos da tripulação da aeronave que terminou com a queda do avião da Voepass, os pilotos falam sobre uma situação de gelo:

Copiloto: Olha a situação, se bem que não tá reportado isso aí, mas pra gente não pegar gelo teria que ir no 110, né? (110 é referência ao nível de voo FL110).

Após o comentário, é emitido um sinal sonoro de detecção de gelo.

Piloto: Foi só eu falar. O avião escutou. Esse avião parece aquele Fusquinha, Herbie lá, Herbie, filme bem antigo.

Em seguida, a tripulação comenta sobre a presença de bastante gelo e reclamam sobre a aeronave.

Copiloto: Bastante gelo [ali]

Piloto: Eh

Copiloto: Ligar o airframe.

Piloto: Essa bosta não tá funcionando, né?

Copiloto: “É”.

Copiloto: “Gelo”.

Alarme de estol – 48 segundos.

Copiloto: “gelo”

Alerta de proximidade do solo.

TAWS: “Pull-up… Pull-up”.

Esse alerta sonoro significa que o sistema da aeronave (o TAWS/GPWS – Terrain Awareness and Warning System) passou a emitir o aviso para que os pilotos interrompessem imediatamente a descida e elevassem o nariz da aeronave, porque havia risco iminente de colisão com o solo.

O comando de voz “Pull up” é um dos alertas mais críticos da aviação. Ele não está relacionado ao gelo ou ao estol, mas sim à proximidade perigosa do terreno. O documento também destaca conversas da tripulação da aeronave no voo anterior, entre Guarulhos e Cascavel:

Piloto: Ó lá o gelo, o gelo foi embora agora, finalmente, escutei um barulho aqui, foi o gelo que voou.

Copiloto: Muito bom, comandante.

Após o pouso, o piloto afirmou:

Piloto: Chegamos vivos.

Piloto: Ufa, chegamos vivos.

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Texto original daqui