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| Por: Adalberto Luque |
O crime organizado encontrou no ambiente digital um espaço para ampliar a atuação, reduzir a exposição dos envolvidos e alcançar vítimas que, muitas vezes, estão a quilômetros de distância. A mudança não significa que as modalidades tradicionais desapareceram. O que ocorreu foi uma ampliação das formas de atuação, com golpes que passaram a combinar telefone, aplicativos de mensagens, redes sociais, páginas falsas, dados pessoais e ferramentas tecnológicas.
No Estado de São Paulo, a Divisão de Crimes Cibernéticos (DCCiber), do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic), fechou 2025 com 353 casos solucionados, média próxima de um caso esclarecido por dia. No mesmo período, realizou 138 operações, cumpriu 632 mandados judiciais e fez 325 indiciamentos. Foram apreendidos 402 celulares e outros 727 dispositivos e materiais eletrônicos. Criada em 2020, a unidade atua na investigação de crimes praticados no ambiente digital e mantém um Centro de Inteligência Cibernética, com policiais com formação técnica na área de informática.
Novo crime
Os números mostram também a dimensão do trabalho necessário para chegar aos autores. Em muitos casos, o primeiro contato com a vítima ocorre por uma ligação, uma mensagem ou um anúncio. A partir desse contato, começa uma sequência que pode envolver diferentes pessoas, aparelhos, contas e serviços. Para chegar aos responsáveis, a investigação precisa reconstruir essa cadeia e identificar a função desempenhada por cada envolvido.
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para passar nos filtros ATS, Gupy e LinkedIn.
O delegado responsável pela DCCiber, Paulo Barbosa, afirmou que os criminosos perceberam que atuar atrás de uma tela pode ser mais vantajoso do que cometer determinados delitos diretamente nas ruas. A distância física entre o criminoso e a vítima reduz a possibilidade de confronto e permite que uma mesma estrutura tente atingir várias pessoas em sequência. Segundo ele, os golpes exploram principalmente emoção, urgência e oportunidade.
A tecnologia passou a fazer parte de diferentes etapas desse processo. Ferramentas digitais permitem modificar a forma de contato com a vítima, criar abordagens mais elaboradas e acelerar a preparação das fraudes. A inteligência artificial acrescentou novas possibilidades a esse cenário, ao mesmo tempo em que aumentou a dificuldade para identificar rapidamente se uma mensagem, imagem ou voz é verdadeira.
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A DCCiber também identificou o uso de Voice over Internet Protocol (VoIP) – ou Voz sobre IP -, mascaramento de números e simulação de voz em golpes. Esses recursos permitem alterar a aparência ou a origem de uma comunicação e dificultam a identificação imediata de quem está por trás dela.
Os dados pessoais passaram a ocupar outro espaço nesse mercado criminoso. Informações que antes serviam apenas para identificar uma pessoa podem ser aproveitadas em diferentes tipos de fraude. Nome, documentos, endereço, telefone e imagens podem alimentar novas etapas do golpe, principalmente à medida que bancos, empresas e serviços ampliam o uso de mecanismos digitais de identificação.
Dados valiosos
O problema ganhou novas formas à medida que bancos, empresas e serviços públicos passaram a utilizar a biometria como mecanismo de identificação. O reconhecimento facial e a impressão digital são dados ligados a características físicas únicas e, por isso, exigem cuidado. Em agosto de 2026, o governo federal voltou a orientar usuários sobre os cuidados com aplicativos que solicitam biometria e dados pessoais.
A utilização dessas informações pode começar em situações que, isoladamente, não parecem ter relação com uma fraude. Uma fotografia, um documento ou um cadastro podem ser obtidos em uma etapa e utilizados posteriormente em outra operação. É justamente essa distância entre a coleta da informação e o prejuízo que pode dificultar a percepção da vítima.
O cenário também ajuda a explicar por que o combate aos crimes digitais depende de equipes especializadas. Não basta localizar uma pessoa que recebeu um PIX. É necessário reconstruir o caminho do dinheiro, identificar quem forneceu a conta, quem fez os contatos, quem controlava os aparelhos e quem coordenava a operação. Em investigações mais complexas, diferentes grupos podem ter funções separadas.
A Polícia Civil de São Paulo e a Polícia Federal firmaram, em dezembro de 2025, um acordo de cooperação para reforçar o combate aos crimes cibernéticos, com desenvolvimento e compartilhamento de tecnologias. A iniciativa prevê atuação conjunta e integração de informações relacionadas aos delitos praticados nessas redes.
A velocidade é outro obstáculo. Os criminosos podem agir em intervalos cada vez menores, enquanto as investigações precisam reunir informações de diferentes fontes para identificar os responsáveis. Relatórios sobre segurança digital também mostram mudanças na forma como os invasores atuam, com maior utilização de recursos tecnológicos e de ferramentas disponíveis nos próprios ambientes atingidos.
Para as polícias, a dificuldade não está somente em descobrir que houve uma fraude. Muitas vezes, é preciso preservar provas, obter autorizações judiciais, cruzar dados e identificar pessoas que podem estar em diferentes cidades ou até países. Enquanto a vítima percebe o prejuízo, os envolvidos podem já ter iniciado outras etapas da operação.
Rastro financeiro
Depois do primeiro contato com a vítima, existe outro desafio: acompanhar o dinheiro. A movimentação dos valores pode envolver diferentes contas e pessoas, tornando necessário reconstruir uma sequência de transferências para identificar a origem e o destino dos recursos.
Essa etapa ganhou novas características com a utilização de serviços financeiros digitais e ativos virtuais. O dinheiro obtido com fraudes pode passar por diferentes caminhos antes de chegar aos responsáveis, e a investigação precisa acompanhar essas movimentações para identificar os envolvidos.

O uso de novas formas de movimentação financeira, no entanto, não elimina necessariamente os registros. As investigações passam a trabalhar com informações bancárias, dados de transações e registros digitais que podem ajudar a reconstruir o caminho percorrido pelos valores.
A migração para o ambiente digital, portanto, não eliminou os rastros. Ela mudou a natureza desses rastros. Em vez de testemunhas presenciais e deslocamentos físicos, as investigações passam a trabalhar também com registros de acesso, aparelhos, contas, linhas, imagens, mensagens, dados bancários e movimentações digitais.
Os próprios resultados da DCCiber no Estado mostram a dimensão dessa atuação. Em 2025, foram centenas de medidas judiciais e apreensões de equipamentos em investigações de crimes digitais. O Centro de Inteligência Cibernética reúne policiais com formação na área digital para atuar na identificação de vínculos eletrônicos e no rastreamento de informações. O trabalho exige o cruzamento de diferentes dados para reconstruir operações que podem envolver pessoas e estruturas espalhadas por diferentes locais.
Free Flow falso
O sistema de pedágio eletrônico Free Flow também passou a ser usado em golpes. A Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) alertou para mensagens, páginas e outros contatos falsos que usam o nome do sistema para induzir motoristas a pagar cobranças ou fornecer informações. A orientação é não clicar em links recebidos por mensagens e conferir os canais oficiais antes de fazer qualquer pagamento.
Em apenas um ano, a empresa de segurança digital Karpersky identificou 480 sites falsos que supostamente regularizam as passagens de veículos pelo sistema free flow. Em uma única semana foram criados 80 sites que geram uma falsa cobrança por PIX.
Na região, a Ecovias Noroeste Paulista opera quatro pórticos de Free Flow: dois na SP-333, em Itápolis e Jaboticabal, e dois na SP-326, em Dobrada e Taiúva. Os dois primeiros começaram a operar em 2024. Os equipamentos de Dobrada e Taiúva passaram a funcionar em novembro e dezembro de 2025, respectivamente.

A concessionária informou em seu site que o serviço oficial não envia links de cobrança por redes sociais ou aplicativos de mensagens, não direciona o usuário para páginas externas e não encaminha boletos para pagamento da tarifa. Para quem não utiliza TAG que garante a cobrança eletrônica, inclusive em praças onde hajam cabines, existem canais oficiais para consulta e regularização da passagem.
O golpe explora uma mudança real na rotina dos motoristas: o veículo passa pelo pórtico sem parar e a cobrança é feita eletronicamente. O criminoso usa essa novidade para criar uma falsa cobrança e tentar levar a vítima a um site ou pagamento que não pertence ao serviço. Chega a ser similar a criminosos que, em determinados cruzamentos fotografavam a placa de um veículo e mandavam uma correspondência com a foto impressa em forma de multa, com boleto para pagamento. Muita gente caiu nesse golpe.
IA no ataque
Relatório da CrowdStrike aponta que os ataques cibernéticos estão mais rápidos e sofisticados. A empresa norte-americana de cibersegurança e tecnologia registrou aumento de 89% nos ataques conduzidos com auxílio de inteligência artificial. O levantamento também apontou crescimento de 42% na exploração de vulnerabilidades de dia zero antes da divulgação pública.
Outro dado é o tempo necessário para um invasor avançar dentro de um ambiente comprometido. O menor intervalo registrado em 2025 foi de 27 segundos. O relatório também apontou que 82% das intrusões analisadas foram classificadas como “malware-free”, sem uso de malware tradicional, com emprego de credenciais válidas e ferramentas disponíveis no próprio ambiente.
O documento registra ainda aumento de ataques contra ambientes de nuvem e aponta o uso crescente de técnicas de engenharia social, incluindo páginas falsas de verificação. A inteligência artificial aparece como ferramenta para criar abordagens de phishing mais convincentes, automatizar ações e ampliar a escala dos ataques.
Dados que viram dinheiro
Dados pessoais podem ser usados para abrir contas, contratar empréstimos e realizar serviços em nome de terceiros. O Banco Central alerta para golpes em que criminosos pedem dados ou uma selfie sob a justificativa de concluir um cadastro ou entregar um presente. Em São Paulo, uma investigação mostrou mulheres atraídas por uma falsa campanha publicitária e fotografadas. Segundo a investigação, os rostos foram usados na contratação fraudulenta de mais de 30 empréstimos, com prejuízo estimado em R$ 150 mil.
Depois do pagamento, os valores podem ser distribuídos por diferentes contas e transferidos sucessivamente, inclusive por contas de terceiros. O dinheiro também pode chegar aos criptoativos. Em setembro de 2026, a Operação ClickFix apreendeu mais de R$ 8,7 milhões em criptoativos. Em julho, a Operação Dark Wallet investigou uma organização suspeita de movimentar mais de R$ 188 milhões por meio de falsas plataformas de investimento. O Ministério Público do Rio de Janeiro também identificou mais de R$ 1 milhão em criptoativos comprados com dinheiro de golpes.
Namorando Elon Musk
Em março de 2024, uma mulher, então com 61 anos, moradora da região de Ribeirão Preto, começou a conversar pela internet com um homem que dizia ser o bilionário Elon Musk. O contato se estendeu por mais de quatro meses e evoluiu para um suposto relacionamento amoroso. Durante o período, o golpista utilizou mensagens, fotos, vídeos e chamadas de vídeo para convencer a vítima de que ela realmente conversava com o bilionário.

A aproximação começou pelas redes sociais e, depois, passou para aplicativos de mensagens. O suposto empresário chegou a oferecer cartões para fãs, presentes e até uma proposta de investimento em uma moeda virtual. A mulher fez pagamentos, comprou cartões-presente e entregou os códigos ao golpista. Também realizou transferências e contraiu empréstimos a pedido dele.
Em uma das situações, o falso Musk afirmou que precisava de dinheiro para pagar o aluguel de uma mulher que, segundo ele, fazia parte de seu círculo. A vítima chegou a fazer um Pix para a conta indicada. Em outro momento, foi orientada a investir em Bitcoin. O golpista mostrava, durante as conversas, supostos ganhos que teriam sido obtidos com o investimento.
Ao todo, a mulher perdeu mais de R$ 35 mil. Mesmo depois do prejuízo, ela continuava acreditando que havia mantido contato com o verdadeiro empresário. Foi um exemplo da forma como a IA pode ser utilizada para ludibriar as vítimas.
Não é só idoso
Os golpes digitais atingem diferentes faixas etárias. A DCCiber informou que jovens entre 16 e 25 anos estão entre os grupos mais atingidos, em razão da presença nas redes sociais e plataformas digitais.
Uma pesquisa da Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade), realizada entre julho e setembro de 2025, mostrou que 82% das pessoas com 60 anos ou mais entrevistadas no Estado de São Paulo haviam sofrido tentativas de golpes virtuais por mensagens, e-mails ou ligações fraudulentas. Entre as pessoas de 30 a 59 anos, os índices ultrapassaram 90%.
O levantamento também apontou que 12% das pessoas com 60 anos ou mais relataram abertura fraudulenta de conta bancária ou contratação não autorizada de empréstimo, modalidade que apresentou a maior proporção entre os grupos etários analisados.
Quando a voz engana
A voz de uma pessoa conhecida deixou de ser suficiente para confirmar quem está do outro lado da ligação. O Banco Central alerta que vídeos e áudios produzidos com inteligência artificial podem simular voz e imagem de pessoas. Por isso, pedidos de dinheiro recebidos por aplicativos devem ser confirmados por outro meio.
A DCCiber também identificou o uso de inteligência artificial em golpes bancários. Entre as situações descritas pela unidade está a do falso gerente de banco, em que o criminoso usa recursos tecnológicos para tornar a ligação mais convincente e cria uma falsa situação de risco na conta da vítima.
A recomendação é interromper a conversa e procurar o banco por um canal oficial. Quando o pedido vier de um familiar ou conhecido, a confirmação deve ser feita por uma ligação direta para o número que já era utilizado anteriormente.
O que fazer
Quem perceber que caiu em um golpe deve interromper o contato e procurar imediatamente a instituição financeira envolvida. Também é importante guardar comprovantes, mensagens, números de telefone, endereços de sites, e-mails, nomes usados pelos criminosos e outros registros da abordagem.
O Banco Central orienta que a vítima de golpe envolvendo conta ou empréstimo entre em contato com o banco para pedir o cancelamento. Quando a pessoa não reconhece a instituição utilizada, é possível consultar o Relatório de Contas e Relacionamentos em Bancos, o CCS, pelo sistema Registrato. Também é recomendável registrar boletim de ocorrência.
Em golpes que envolvem links ou páginas falsas, o endereço eletrônico deve ser conferido antes de qualquer preenchimento. No caso do Free Flow, a orientação é consultar somente os canais oficiais. A mesma regra vale para bancos, lojas, órgãos públicos, empresas e serviços de qualquer natureza.
Penas menores e impunidade
Coronel aposentado da Polícia Militar e especialista em segurança pública, Marco Aurélio Gritti entende que o crescente aumento nos golpes virtuais de fato sugere que os criminosos mudaram para outra modalidade de delito.
“Entretanto, vê-se que o cenário criminal no Estado de São Paulo, nos crimes patrimoniais como furtos e roubos, se mantém, embora sejam notadas as reduções históricas dos números, nesse governo, face à atuação das forças de segurança, à tecnologia, inteligência e à participação social”, acrescenta Gritti.
Segundo o coronel, ao optar pelos crimes virtuais, os criminosos se valem da redução dos riscos inerentes em caso de confronto, quando as chances de prisão e rápida solução do crime seria característico. O ambiente virtual mantém distância entre o criminoso e a vítima, sem utilização de armas e violência.

“Isso reduz eventual sanção reclusória e permite usufruir da impunidade e dos benefícios legais provenientes da equivocada política de desencarceramento, sobretudo nos casos reincidentes e crimes hediondos.”
Para Gritti, o furto ou o roubo reúne ladrões que, em geral, agem por oportunidade, buscando sustentar o vício de drogas. Já nos golpes virtuais, ele percebe imposições das facções.
“Os crimes/golpes virtuais trazem engenharia social, acesso ilegal a dados pessoais, lavagem de capitais e investimento em tecnologia, tudo de forma organizada para dificultar as investigações e o rastreio do dinheiro. Lamentavelmente, a legislação penal não foi capaz de impedir com que os criminosos ‘investissem’ em nova modalidade delituosa”, conclui Gritti.
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