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Estudo da USP revela efeito da fumaça do cigarro na formação dos dentes

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Uma pesquisa realizada na Faculdade de Odontologia de Ribeirão Preto (FORP-USP) revelou que a exposição passiva à fumaça do cigarro nos primeiros dias de vida pode provocar alterações na mineralização do esmalte dentário, mesmo sem causar mudanças visíveis nos dentes.

O estudo faz parte de uma pesquisa coordenada pelo professor Francisco Wanderley Garcia de Paula-Silva. Os resultados foram publicados em maio na revista Calcified Tissue International.

Com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), o grupo pesquisa como situações difíceis no começo da vida, como o contato com álcool, cigarro e estresse, podem afetar o desenvolvimento do organismo.

A pesquisa mais recente foi realizada durante o doutorado de Juliana de Lima Gonçalves, primeira autora do estudo, e faz parte da linha de pesquisa DOHaD, sigla em inglês para “Origens Desenvolvimentistas da Saúde e da Doença”, que estuda como as condições vividas no início da vida podem afetar a saúde no futuro.

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A hipótese defende que muitos problemas de saúde que aparecem na vida adulta têm origem ainda no período embrionário ou nos primeiros anos de vida. Nesse contexto, o esmalte dentário funcionaria como uma espécie de registro biológico.

“O esmalte é uma estrutura muito interessante porque pode funcionar como um biomarcador. Ele se forma naquele momento da vida e depois não sofre remodelação, diferente do osso que segue remodelando durante a vida toda. Então, detectar alterações no esmalte pode trazer informações importantes sobre exposições muito precoces, que às vezes a pessoa nem consegue recordar”, afirma Paula-Silva.

Imagem ilustrativa gerada com auxílio de IA – arte: acidade on.

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Como foi o estudo?

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Para investigar os possíveis efeitos da fumaça passiva nesse processo de formação do esmalte, os pesquisadores dividiram filhotes de ratos em dois grupos. Um deles foi exposto à fumaça de cigarro duas vezes por dia, durante cinco minutos, desde o segundo até o 28º dia de vida.

O grupo-controle permaneceu sem exposição. Os animais foram colocados dentro de uma caixa de acrílico onde a fumaça era liberada de forma controlada.

“O roedor é um modelo muito interessante porque conseguimos controlar a exposição. O animal fica exposto só à fumaça do cigarro e a nada mais, diferentemente do humano, que está exposto a outras coisas do ambiente”, diz.

Segundo Paula-Silva, os dentes incisivos dos roedores crescem continuamente, permitindo acompanhar a formação do esmalte de forma mais dinâmica. “Nós conseguimos olhar para a célula que está formando o esmalte e para o esmalte em si.”

Os pesquisadores também monitoraram peso, crescimento corporal e desenvolvimento dentário dos animais. O primeiro achado foi que os filhotes expostos à fumaça apresentaram menor ganho de peso em comparação ao grupo-controle, seguindo o que a literatura já aponta sobre os efeitos do fumo passivo no ganho de peso.

Impacto do fumo passivo na biomineralização do esmalte dentário em ratos - Foto: reprodução/ revista Calcified Tissue International.
Impacto do fumo passivo na biomineralização do esmalte dentário em ratos – Foto: reprodução/ revista Calcified Tissue International.

Análise

Quando os pesquisadores analisaram os dentes dos animais, não encontraram diferenças importantes entre os grupos. Por isso, fizeram exames mais detalhados, usando microscópios e análises químicas.

Esses exames mostraram que os dentes dos animais expostos à fumaça tinham alterações no esmalte, a camada que protege o dente. Também foi encontrado menos fósforo nessa parte do dente.

Segundo o professor, o fósforo é um dos componentes da hidroxiapatita, molécula responsável pela dureza do esmalte. Alterações nessa composição podem afetar propriedades mecânicas do dente, como resistência ao desgaste e a fraturas.

O estudo também identificou aumento da quantidade de carbono no esmalte dos animais expostos à fumaça. Segundo Paula-Silva, esse achado chama atenção porque o esmalte dentário é uma estrutura essencialmente mineral e praticamente sem matéria orgânica.

“O esmalte é a estrutura mais dura do corpo humano justamente porque ele é altamente mineralizado. O aumento de carbono sugere maior presença de material orgânico no esmalte, o que não é considerado normal”, explica Paula-Silva ao ressaltar que, associada à redução de fósforo observada no estudo, essa alteração pode modificar características importantes do esmalte, como resistência e dureza.

Exposição precoce ao fumo passivo altera composição do esmalte dentário - Foto: Magnific.
Exposição precoce ao fumo passivo altera composição do esmalte dentário – Foto: Magnific.

Testes não mostraram redução na dureza inicial do esmalte

Apesar dos resultados, os testes não mostraram que o esmalte dos dentes ficou mais fraco. Para o professor, uma possível explicação é que os animais ainda eram muito jovens e não tinham usado os dentes por muito tempo.

“Eles praticamente não usaram esses dentes. O que a gente precisa entender agora é como esse esmalte vai se comportar com o uso ao longo do tempo. Será que essa alteração na composição química vai impactar a resistência do dente no futuro? Essa ainda é uma pergunta em aberto”, comenta.

Para responder a essa questão, o grupo já deu início a uma nova etapa da pesquisa. Desta vez, os animais estão sendo submetidos a uma exposição maior à fumaça do cigarro, de cerca de uma hora, duas vezes ao dia.

A expectativa é verificar se uma carga mais intensa de exposição é capaz de produzir alterações mais evidentes na estrutura do esmalte e reproduzir defeitos que se aproximem daqueles observados em humanos.

“Talvez, o que estamos vendo agora seja uma manifestação mais leve desse problema. Com uma exposição maior, poderemos entender melhor até onde essas alterações podem chegar”, avalia o pesquisador.

Os cientistas também buscam compreender em que momento da formação do esmalte a fumaça exerce maior influência.

E agora?

Embora os resultados não possam ser aplicados diretamente aos seres humanos, o professor Paula-Silva acredita que o estudo pode ajudar a entender melhor alguns problemas na formação dos dentes em crianças.

Um exemplo é a hipomineralização molar-incisivo, que deixa o esmalte mais frágil e aumenta o risco de fraturas e cáries. Segundo o professor, ainda não se sabe exatamente o que causa esse problema, mas os resultados indicam que a exposição à fumaça desde cedo pode estar entre as possíveis causas.

“Hoje ainda não sabemos exatamente por que esses defeitos acontecem. Quando observamos que a exposição precoce à fumaça altera a composição e a estrutura do esmalte, isso sugere que o tabagismo passivo pode ser uma das causas envolvidas nesse processo.”

O professor ressalta, no entanto, que essa é apenas uma hipótese, pois o estudo não estabelece uma relação direta entre fumo passivo e hipomineralização dentária em humanos

Ainda assim, ele diz que os achados reforçam a preocupação com os efeitos da exposição ao cigarro na infância – clique aqui para conferir o artigo publicado na revista Calcified Tissue International.

*Com informações de Fernanda Bassette da Agência FAPESP

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