| Por: Adalberto Luque |
Pesquisador pós-doc da Faculdade de Medicina da USP Ribeirão Preto constatou que o estresse crônico afeta metabolismo e favorece gordura abdominal
O estresse, cada vez mais presente na rotina da população, deixou de ser uma reação pontual para se tornar um estado contínuo em muitos casos, sobretudo quando evolui para uma forma crônica. Associado ao ritmo acelerado de vida, às demandas profissionais, às preocupações financeiras e à exposição constante a estímulos, como notificações eletrônicas, esse quadro tem sido apontado como um dos principais desafios de saúde na atualidade.
Publicação do Jornal da USP Ribeirão Preto destaca que o estresse crônico vai além do campo emocional e provoca alterações importantes no funcionamento do organismo, especialmente por meio da ação de hormônios como o cortisol. Esse desequilíbrio pode interferir no metabolismo e favorecer o acúmulo de gordura, principalmente na região abdominal.
Professor doutor em Fisiologia do metabolismo e ingestão alimentar que atuou como pesquisador “pós-doc da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP, Rafael Appel Flores explica que o corpo humano foi projetado para lidar com situações de estresse de forma temporária. ““Nosso corpo foi projetado para lidar com situações estressantes de forma aguda e passageira. Não fomos moldados para suportar essa carga de estresse crônico. Essas constantes notificações que que recebemos nos celulares ou smartwatches, as preocupações financeiras, os conflitos de relacionamento, tudo isso mantém e organiza um estado de alerta que em alguns casos não se desliga completamente e o organismo responde com a liberação de hormônios como o cortisol e a adrenalina, aumentando a energia e o foco”, afirma.
O problema, segundo ele, ocorre quando esse mecanismo deixa de ser transitório. “Hoje, para muitas pessoas, o estresse não se desliga. O estado de alerta permanece por longos períodos, o que não é uma condição para a qual o organismo foi preparado. Esse processo leva a um desgaste progressivo que afeta praticamente todos os sistemas do corpo”, diz.
Ele acrescenta que esse cenário está associado ao aumento de doenças cardiovasculares, metabólicas e mentais. “O estresse crônico é considerado um dos grandes desafios de saúde pública do século XXI”, afirma.
Alerta constante
A permanência do organismo em estado de alerta desencadeia uma série de alterações fisiológicas. “O coração passa a trabalhar mais, a pressão arterial se eleva, o sistema imunológico sofre desgaste e o cérebro também é impactado”, explica Flores.
Segundo ele, esse processo pode ser comparado a um motor que permanece acelerado por tempo prolongado. “Em algum momento, começa a apresentar falhas. O corpo humano funciona de maneira semelhante quando submetido ao estresse contínuo”, diz.
No cérebro, os efeitos são perceptíveis no dia a dia. “O estresse crônico altera regiões ligadas à memória, à tomada de decisão e à regulação emocional. Isso pode gerar dificuldade de concentração, esquecimentos, irritabilidade e sensação constante de esgotamento”, afirma.
Esse quadro também está relacionado a transtornos como ansiedade e depressão. “Há uma maior vulnerabilidade a essas condições, além de um impacto importante na qualidade de vida”, acrescenta.
Sono prejudicado
Outro aspecto afetado é o sono. O cortisol, hormônio central na resposta ao estresse, segue um ritmo natural ao longo do dia, mas esse padrão pode ser alterado em situações prolongadas de tensão.
“Quando o cortisol permanece elevado à noite, a pessoa tem dificuldade para iniciar o sono e para manter um descanso de qualidade. Isso cria um ciclo em que o estresse prejudica o sono e o sono ruim aumenta ainda mais o estresse”, explica.

Segundo o especialista, muitas pessoas procuram atendimento acreditando ter apenas um problema emocional isolado. “Na prática, muitas vezes estão inseridas em um ciclo fisiológico que envolve sono, hormônios e comportamento, e que precisa ser tratado de forma integrada”, afirma.
Metabolismo alterado
Os impactos do estresse crônico não se restringem ao campo emocional e cognitivo. No organismo, o cortisol exerce influência direta sobre o metabolismo.
“Quando está cronicamente elevado, o cortisol atua como um sabotador metabólico. Ele estimula a produção de açúcar no sangue, dificulta a utilização desse açúcar pelas células e favorece o acúmulo de gordura”, explica Flores.
Esse acúmulo ocorre de forma mais intensa na região abdominal. “A gordura visceral, localizada na barriga, é mais sensível à ação do cortisol. Ela possui maior quantidade de receptores para esse hormônio, o que faz com que o organismo direcione o armazenamento de gordura para essa região”, afirma.
Ele compara esse mecanismo a uma espécie de captação ampliada do sinal hormonal. “É como se essa gordura tivesse uma ‘antena’ mais sensível ao cortisol, favorecendo seu acúmulo”, diz.
Gordura visceral
Diferentemente da gordura subcutânea, a gordura visceral apresenta maior risco à saúde. “Ela envolve os órgãos internos e é metabolicamente ativa, ou seja, produz substâncias inflamatórias que prejudicam o metabolismo”, explica.
Essas substâncias estão associadas ao aumento do risco de hipertensão, diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares e alterações no colesterol. “Além disso, a gordura visceral libera ácidos graxos diretamente na corrente sanguínea, que chegam ao fígado e agravam ainda mais o quadro metabólico. ”O estresse também pode influenciar o comportamento alimentar. “O cortisol elevado aumenta o apetite, especialmente por alimentos mais calóricos, como doces e gorduras, favorecendo a chamada alimentação emocional”, diz.
Ao mesmo tempo, há redução da disposição para a prática de atividades físicas, o que contribui para o agravamento do quadro.
Mesmo com dieta
Um dos pontos destacados pelo especialista é que o ganho de peso pode ocorrer mesmo com alimentação equilibrada. “O estresse atua por mecanismos independentes da dieta. Ele pode estimular diretamente a produção de gordura e reduzir sua quebra”, explica.

Em alguns casos, fatores individuais também interferem nesse processo. “Há pessoas com maior atividade de enzimas relacionadas ao metabolismo do cortisol, o que amplifica seus efeitos nos tecidos. Isso pode levar ao acúmulo de gordura mesmo com níveis normais do hormônio no sangue”, afirma.
Segundo ele, isso ajuda a explicar por que algumas pessoas têm dificuldade em perder peso, apesar de manterem hábitos saudáveis. “Nesses casos, tratar apenas a alimentação não é suficiente. É necessário abordar o estresse de forma direta”, diz.
Efeito cascata
O acúmulo de gordura abdominal pode evoluir para sobrepeso e obesidade, gerando uma cadeia de consequências para o organismo.
“O excesso de peso provoca sobrecarga nas articulações, principalmente nos joelhos e quadris. Há evidências de que cada quilo adicional pode representar cerca de quatro quilos a mais de carga sobre os joelhos durante a caminhada”, afirma.
Esse processo acelera o desgaste das articulações e pode favorecer o desenvolvimento de artrose, doença que causa dor crônica e limitação de movimentos.
Além da sobrecarga mecânica, há também o efeito inflamatório. “As substâncias liberadas pela gordura visceral podem agravar quadros articulares, tornando o problema ainda mais complexo”, explica.
Ciclo com sedentarismo
O estresse crônico está frequentemente associado ao sedentarismo, formando um ciclo prejudicial. “A pessoa estressada tende a apresentar mais fadiga e menos motivação, o que reduz a prática de exercícios”, afirma.
Por outro lado, a ausência de atividade física piora a regulação do cortisol e intensifica os efeitos do estresse. “É um ciclo em que um fator retroalimenta o outro”, diz.
Na literatura científica, esse padrão é descrito como um fenótipo associado ao estresse e à deficiência de exercício, caracterizado por acúmulo de gordura visceral e aumento do risco metabólico.
Atividade física
A prática regular de exercícios é apontada como uma das principais estratégias para interromper esse ciclo. “O exercício físico melhora a regulação hormonal, reduz a inflamação, melhora o sono e aumenta a disposição”, afirma.

Segundo o especialista, a combinação de exercícios aeróbicos com treinamento de força apresenta melhores resultados. “Os exercícios aeróbicos ajudam a regular o cortisol e têm efeito anti-inflamatório. Já o treino de força melhora a massa muscular e a sensibilidade à insulina”, explica.
Atividades que envolvem atenção plena também são recomendadas. “Práticas como yoga ou caminhadas em ambientes naturais atuam no corpo e na mente, contribuindo para uma redução mais acentuada do estresse”, diz.
A regularidade é considerada essencial. “O mais importante é a consistência. A prática frequente de qualquer atividade física promove adaptações que tornam o organismo mais resiliente ao estresse”, afirma.
Fatores individuais
A resposta ao estresse varia de pessoa para pessoa. “Existem diferenças individuais importantes, que podem ter origem genética ou ambiental”, explica Appel Flores.
Entre os fatores que aumentam a vulnerabilidade estão experiências adversas, histórico de ansiedade ou depressão, sono inadequado, sedentarismo, alimentação rica em ultraprocessados e isolamento social.
“Tudo isso influencia a regulação do eixo do cortisol e pode amplificar os efeitos do estresse ao longo da vida”, afirma.
Homens e mulheres
O impacto do estresse também apresenta diferenças entre os sexos, especialmente em relação ao acúmulo de gordura.
“Os homens tendem a acumular mais gordura visceral. Já as mulheres, antes da menopausa, têm uma proteção hormonal que direciona o acúmulo para regiões como quadris e coxas, que são metabolicamente menos prejudiciais”, explica.
Isso, no entanto, não significa menor impacto do estresse nas mulheres. “Elas apenas expressam esse efeito de forma diferente. Há maior tendência à alimentação emocional e maior prevalência de ansiedade e depressão associadas ao estresse”, afirma.

Antes da menopausa, mulheres acumulam gordura na região dos quadris e coxas, o que não significa menor impacto do estresse (Foto: Reprodução)
Após a menopausa, com a redução do estrogênio, esse padrão se altera. “As mulheres passam a acumular gordura abdominal de forma semelhante aos homens, aumentando o risco cardiometabólico”, diz.
Tratamento
O controle do estresse é considerado fundamental para a prevenção e o tratamento de doenças associadas ao metabolismo.
“Medidas como prática regular de atividade física, sono adequado, alimentação equilibrada e manutenção de vínculos sociais são essenciais. O manejo do estresse não é um luxo, mas uma necessidade”, afirma.
Em relação ao uso de medicamentos para emagrecimento, o especialista destaca que eles podem ser indicados em casos específicos, mas não substituem mudanças no estilo de vida.
“Esses medicamentos ajudam na redução do apetite e na melhora da sensibilidade à insulina, mas não tratam a causa quando o problema está relacionado ao estresse. Sem esse controle, há risco de recuperação do peso após a interrupção”, explica.
Segundo ele, a abordagem deve ser integrada. “O tratamento mais eficaz combina, quando necessário, o suporte farmacológico com mudanças reais de hábitos, especialmente no controle do estresse, na prática de exercícios, no sono e na alimentação”, conclui.
