Ataques do PCC completam 20 anos

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| Por: Adalberto Luque |

Maio de 2006. O que deveria ser um período de celebração pelo Dia das Mães transformou-se no capítulo mais sombrio da segurança pública paulista. Há exatos 20 anos, o Estado de São Paulo era sitiado pelo “Salve Geral”, uma ofensiva coordenada pela facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC) que revelou a vulnerabilidade das instituições e deixou um rastro de 564 mortes em apenas dez dias.

Como definiu o professor e pesquisador da USP, Paulo César Pontes Fraga, em entrevista à Agência Brasil, os ataques foram “como uma bomba que caiu em São Paulo”, alterando para sempre a dinâmica do crime organizado e a resposta estatal. O) episódio ficou conhecido por “Crimes de Maio”.

O balanço geral da tragédia no estado impressiona pela magnitude: entre 12 e 21 de maio, o saldo total foi de 564 mortos, sendo 505 civis e 59 agentes públicos. O estopim para o caos foi a transferência estratégica de 765 líderes da facção para a Penitenciária de Segurança Máxima de Presidente Venceslau às vésperas da data comemorativa.

Ataques iniciados pelo PCC resultaram em 564 mortes (Foto: Reprodução)

A resposta do crime foi imediata e brutal. Presos beneficiados pela saída temporária do Dia das Mães receberam a missão da liderança da facção e iniciaram a tarefa, com bases da Polícia Militar, delegacias e ônibus atacados em ondas sucessivas por todo o território paulista — um cenário de guerra urbana que chocou o país e o mundo.

Na região de RP, violência extrema

Embora a capital paulista tenha concentrado grande parte das ocorrências, o interior não foi poupado da fúria coordenada. Na região de Ribeirão Preto, a ofensiva criminosa resultou em um saldo violento de pelo menos 17 mortos, número que inclui tanto agentes de segurança pública quanto civis, nas três ondas atribuídas à facção, a última delas em julho de 2006.

O medo generalizado esvaziou as ruas da cidade e região, fechou o comércio precocemente e paralisou serviços essenciais, em um reflexo direto do pânico que tomou conta da capital. Os ataques na região incluíram ônibus incendiados, emboscadas a bases policiais e rebeliões em unidades prisionais que atingiram níveis de barbárie.

Das 17 vítimas fatais contabilizadas na macrorregião, além de agentes da segurança pública e penitenciária, estavam pessoas comuns, que cruzaram o caminho dos criminosos. Mais do que números, eram nomes que compunham a rede social de comunidades até então pacatas e que hoje figuram em um balanço marcado pela dor e pelo silêncio.

Barbárie em Jaboticabal

Um dos episódios mais cruéis de toda a crise de 2006 ocorreu na cadeia pública de Jaboticabal. O delegado Adelson Taroco tornou-se o símbolo trágico da vulnerabilidade do sistema. No domingo de Dia das Mães, durante uma tentativa de negociação para conter um motim iniciado em apoio ao “Salve Geral”, Taroco foi dominado por detentos. Em um ato de sadismo extremo, os criminosos atearam fogo em colchões e os jogaram sobre o delegado.

Delegado Taroco foi brutalmente atacado e teve o corpo enrolado em colchões queimando; lutou pela vida por 20 dias, mas morreu vítima do ataque de presos (Foto: Sinpol/Arquivo)

Taroco foi queimado vivo. Com queimaduras em 70% do corpo, ele lutou pela vida durante 20 dias na Unidade de Queimados do Hospital das Clínicas – Unidade de Emergência, em Ribeirão Preto, mas não resistiu. O caso gerou indignação nacional e anos de batalhas judiciais.

Pelo menos oito pessoas foram condenadas pelo Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) pelo crime. A Justiça determinou o pagamento de indenização por danos morais à viúva e aos dois filhos de R$ 394 mil, além de uma pensão mensal.

Rastro de impunidade

Ribeirão Preto também chorou a perda do bombeiro João Alberto da Costa. Ele foi executado em um atentado em frente a uma unidade do Corpo de Bombeiros, em um ataque que feriu outros colegas de farda. A natureza dos ataques era clara: desestabilizar qualquer força que representasse o Estado, mesmo aquelas dedicadas exclusivamente ao salvamento de vidas.

Outro caso que ilustra a covardia do período foi o assassinato de Arildo Ferreira da Silva, de 34 anos. Policial Militar Ambiental, Arildo foi morto ao deixar a noiva em casa. Juliano Diogo e Michel dos Santos também integram a lista de 17 mortos da região, nomes que se somam às estatísticas de um período em que o Estado de Direito foi posto à prova sob o fogo dos ataques.

Duas décadas depois, a cicatriz dos “Crimes de Maio” na região ainda não se fechou totalmente, em grande parte devido à impunidade histórica. Enquanto casos como o de Taroco tiveram desfecho judicial, parte das 17 mortes contabilizadas na região seguiram sem solução. O levante de 2006 não foi apenas um evento isolado; foi a demonstração de força de um crime organizado que deixou em Ribeirão Preto um lembrete permanente de uma semana em que a paz foi sequestrada e o Estado falhou em proteger seus cidadãos, num ciclo de violência que chocou o planeta.



Texto original daqui