Expedição ribeirão: a história da zona Norte passa pelo curso d’água que deu nome à cidade

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Quem passa pela avenida Eduardo Andrea Matarazzo, a Via Norte, observa uma das regiões mais movimentadas de Ribeirão Preto. São diversos veículos circulando diariamente por uma avenida que se tornou fundamental para conectar a zona Norte ao restante da cidade.

Mas antes da construção da tradicional via, o ribeirão Preto, corpo d’água que deu nome ao município, já influenciava a ocupação daquela parte da cidade.

Segundo o historiador José Antônio Correa Lages, a formação urbana de Ribeirão Preto foi marcada durante décadas por uma divisão geográfica e social conhecida como “Entre Rios” e “Além Rios”, criada a partir dos principais cursos d’água que cortam a cidade.

Conforme a explicação, o “Entre Rios” correspondia à área central, localizada entre o ribeirão Preto e o córrego Retiro Saudoso. Já o “Além Rios“, região que engloba boa parte da atual zona Norte, era visto como uma área periférica da cidade.

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Porta de entrada de imigrantes

Ainda de acordo com o historiador, também foi nessa região que milhares de imigrantes chegaram a Ribeirão Preto.

Enquanto os passageiros que possuíam melhores condições desembarcavam na estação da Companhia Mogiana (onde hoje é a rodoviária), os trabalhadores eram recebidos na Estação do Barracão, localizada próxima ao ribeirão Preto, que permanece de pé até os dias atuais.

“Você já tem uma configuração social, de certa forma atrelada a essa configuração geográfica ou geo-social da formação da cidade. Então, você tem o ‘Entre Rios’, que corresponde à área central da cidade, entre o ribeirão Preto e o córrego do Retiro, e o ‘Além Rios’, que era exatamente a periferia. São os bairros que concentravam as áreas de moradia e trabalho dos imigrantes que chegavam à cidade e da população trabalhadora”.

Segundo Lages, o próprio nome “Barracão” surgiu porque o local funcionava como uma espécie de centro de recepção e distribuição de mão de obra para as fazendas da região.

No local, os trabalhadores passavam por exames de saúde e realizavam uma espécie de cadastro oficial antes de serem autorizados a seguir viagem rumo às colônias e fazendas da zona rural, onde o café demandava braços para a colheita.

Barracão fica no começo da avenida Dom Pedro I, próximo ao ribeirão Preto – Foto: Guilherme Sircili.

Crescimento da região e novos caminhos

Com o passar dos anos, a zona Norte passou a concentrar cada vez mais moradores. Os tradicionais bairros cresceram, novos empreendimentos chegaram e a região se tornou uma das mais populosas de Ribeirão Preto.

Para acompanhar essa transformação, a cidade precisou criar novas ligações com a zona Norte e foi nesse contexto que a avenida Eduardo Andrea Matarazzo (via Norte) ganhou protagonismo, seguindo o leito do próprio ribeirão Preto.

Conforme explicação da arquiteta e urbanista Vera Lúcia Blat Migliorini, especialista em mobilidade urbana, o planejamento viário de Ribeirão Preto já considerava a presença dos fundos de vale e dos cursos d’água como diretrizes desde a década de 1950.

“Os primeiros planejadores consideraram a presença dos fundos de vale como canais importantes que viabilizariam a construção desses eixos de mobilidade mais estruturante ao longo deles”

Essa visão permitiu que o ribeirão Preto deixasse de ser apenas uma barreira geográfica e passasse a orientar o traçado da via Norte. A especialista ainda lembra que o mesmo planejamento também previa a chamada via Leste, projetada ao longo do córrego Tanquinho na mesma época, mas que até hoje não foi totalmente concluída.

“A gente teve aqui a construção da via Norte e hoje, finalmente estão realizando uma outra, que é o da Tanquinho, avenida que vai ao longo do córrego Tanquinho, um eixo planejado desde a mesma época, mas ainda incompleto”.

Começo da via Norte, às margens do ribeirão Preto - Foto: reprodução/ Google Street View.
Começo da via Norte, às margens do ribeirão Preto – Foto: reprodução/ Google Street View.

Além de concentrar um fluxo intenso de veículos, a avenida que margeia o ribeirão Preto corta uma área em constante crescimento e que segue recebendo novos empreendimentos habitacionais.

Segundo Vera Migliorini, a importância da via também está ligada diretamente ao crescimento populacional registrado nas últimas décadas.

“Ela é essencial. É um dos principais eixos estruturadores do ponto de vista das vias expressas da cidade e faz uma conexão muito importante, considerando inclusive a quantidade de pessoas que moram na área Norte, que continua aumentando. É uma frente de expansão urbana e a via Norte é um eixo de mobilidade fundamental para essa região.”

O engenheiro civil Fernando Junqueira, presidente da Associação de Engenharia, Arquitetura e Agronomia de Ribeirão Preto (AEAARP), também lembra que a consolidação da avenida está ligada à expansão habitacional da região.

Segundo ele, a construção da via Norte abriu caminho para novos conjuntos residenciais e ajudou a impulsionar a ocupação de áreas que, na época, possuíam terrenos mais acessíveis.

“Foi uma região que recebeu muitos conjuntos habitacionais. Havia terrenos mais baratos e isso favoreceu a expansão da parte residencial. Depois vieram os empreendimentos imobiliários e a mobilidade proporcionada pela Via Norte ajudou a consolidar esse crescimento.”

Quiz: A História e o Futuro da Zona Norte

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Expedição Ribeirão: Zona Norte

1. Segundo o historiador Professor Lages, o que representava o termo “Além Rios” na formação da cidade?

  • A área central de elite.
  • A periferia destinada a trabalhadores e imigrantes.
  • A região rural produtora de café.

Baseado nas fontes [1, 2]

2. Qual era a principal função da estação do “Barracão” no final do século XIX?

  • Recepcionar e triar imigrantes para as fazendas.
  • Exportar café diretamente para a Europa.
  • Servir de garagem para os trens da Mogiana.

Baseado nas fontes [2, 3]

3. O bairro Campos Elíseos era originalmente conhecido por qual nome?

  • Barracão de Cima.
  • Vila do Café.
  • Barracão de Baixo.

Baseado nas fontes [2, 4]

4. No planejamento da Via Norte, o que os urbanistas chamaram de “fundos de vale”?

  • Áreas de solo fértil para plantio urbano.
  • Regiões ao longo de cursos d’água usadas para eixos viários.
  • Locais destinados à construção de túneis subterrâneos.

Baseado nas fontes [5]

5. Quem foi o prefeito responsável pela execução das obras da Via Norte?

  • João Gilberto Sampaio.
  • Duarte Nogueira.
  • Antônio Palocci.

Baseado nas fontes [6]

6. O futuro Instituto Federal (IFSP) ocupará as instalações de qual complexo histórico?

  • Antiga Estação da Mogiana.
  • Usina Hidrelétrica do Ribeirão.
  • Antiga fábrica Cianê/Matarazzo.

Baseado nas fontes [7, 8]

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Crescimento trouxe novos desafios

Se por um lado a expansão urbana fortaleceu a zona Norte, por outro também trouxe desafios que ainda impactam a região.

Fernando avalia que o crescimento nem sempre ocorreu de forma planejada e aponta que a ocupação irregular de áreas próximas ao ribeirão Preto e a falta de infraestrutura adequada em algumas comunidades acabaram gerando reflexos ambientais e urbanos que permanecem até hoje.

“Hoje nós temos muitas comunidades instaladas próximas a áreas sensíveis. Em muitos casos faltam serviços básicos e isso acaba impactando diretamente o ribeirão Preto. É uma situação que exige planejamento e políticas públicas de longo prazo.”

O engenheiro também defende a atualização dos projetos de macrodrenagem da cidade. Segundo ele, o crescimento urbano registrado nas últimas décadas alterou significativamente a dinâmica das águas que chegam ao ribeirão.

“O projeto de macrodrenagem existente foi pensado para uma cidade muito diferente da atual. Ribeirão cresceu, se desenvolveu e hoje precisa de uma nova estrutura para enfrentar problemas que aparecem principalmente nos períodos de chuva intensa.”

Comunidade está localizada às margens da via Norte, próximo ao ribeirão Preto - Foto: reprodução/ Google Street View.
Comunidade está localizada às margens da via Norte, próximo ao ribeirão Preto – Foto: reprodução/ Google Street View.

Antiga Cianê, IFSP e uma nova fase para a região

Entre as transformações previstas para os próximos anos dessa região está a instalação do primeiro campus do Instituto Federal de São Paulo (IFSP) em Ribeirão Preto, na área da antiga Cianê, às margens do Ribeirão Preto.

Segundo o historiador José Antônio Correa Lages, o complexo industrial teve papel fundamental no desenvolvimento da zona Norte. Inaugurada na década de 40 como Indústrias Reunidas Matarazzo e posteriormente transformada na Companhia Nacional de Estamparia (Cianê), a fábrica se consolidou como um dos principais polos econômicos da região até encerrar suas atividades na década de 90.

Para o historiador, a chegada do Instituto Federal representa um novo capítulo para uma área que há décadas exerce influência sobre o crescimento da cidade.

“A Cianê foi um grande polo de desenvolvimento da zona Norte. Agora, você tem a ocupação desse espaço por uma instituição de ensino de alcance regional, o que garante uma nova função para uma área historicamente importante para Ribeirão Preto.”

Do ponto de vista da mobilidade, a arquiteta e urbanista avalia que a localização do futuro campus é estratégica por estar próxima de importantes corredores viários, como a via Norte e a avenida Costa e Silva.

“O desafio será garantir não apenas o acesso por automóveis, mas também por transporte coletivo. É um equipamento que terá importância regional e que precisa estar conectado a uma estrutura eficiente de mobilidade.”

Já para o engenheiro Fernando Junqueira, a implantação do IFSP reforça um processo de transformação que a zona Norte vive há décadas.

“O desenvolvimento está acontecendo. A região recebe novos investimentos, novos loteamentos e projetos importantes. O IFSP é mais um equipamento capaz de atrair pessoas, gerar movimento e fortalecer a região.”

Expedição Ribeirão

Este texto faz parte do projeto “Expedição ribeirão Preto”, uma série especial que percorre o caminho das águas que deram nome ao município de Ribeirão Preto, que celebra 170 anos em 2026. Ao longo das próximas semanas, serão publicadas reportagens que resgatam histórias, personagens, acontecimentos e memórias ligadas ao ribeirão que marcou o surgimento e o desenvolvimento da cidade.

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