Expedição ribeirão: especialistas apontam avanços, desafios e caminhos para preservar o curso d’água

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Depois de nascer em Cravinhos, passar por Bonfim Paulista, atravessar a área urbana de Ribeirão Preto e seguir rumo ao norte do município, o ribeirão Preto encerra seu percurso ao encontrar as águas do rio Pardo.

O encontro entre esses dois cursos d’água representa o fim da jornada do ribeirão que deu nome à cidade, mas também levanta uma discussão importante sobre as condições ambientais do rio, os impactos acumulados ao longo do trajeto e o que precisa ser feito para garantir sua preservação nas próximas décadas.

Para especialistas ouvidos pelo acidade on, o ribeirão Preto reúne avanços importantes na área de saneamento, mas ainda enfrenta problemas relacionados à urbanização, à perda de vegetação nas margens e à poluição acumulada ao longo de seu percurso.

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Como o ribeirão Preto chega ao rio Pardo?

De acordo com Otávio Okano, gerente da agência ambiental da Cetesb (Companhia Ambiental do Estado de São Paulo) em Ribeirão Preto, o encontro entre os dois rios tem importância para todo o sistema hídrico da região.

“Ele é um afluente do rio Pardo, muito importante, que tem uma contribuição de uma evasão razoável que ajuda a melhorar as condições do rio Pardo atualmente.” Okano ressalta que essa influência positiva é um reflexo das melhorias ocorridas nas últimas décadas.

Ele recorda que, no passado, era comum ter um grande número de mortes de peixes no rio Pardo após chuvas fortes que vinham seguidas de períodos de seca, devido à carga de poluição arrastada pelo ribeirão.

Esse cenário, porém, mudou há mais de 25 anos com a implantação do sistema de tratamento de esgoto de Ribeirão Preto, permitindo que, hoje, o corpo d’água chegue à foz com uma qualidade muito superior à de antigamente.

“Ele já teve problemas no passado, antes das estações do sistema de tratamento de esgotos de Ribeirão Preto. Até a implantação desse sistema, sempre que a gente tinha, depois de um período de estiagem, uma chuva forte, nós tínhamos uma mortandade de peixe no rio Pardo, que isso não acontece há mais de 25 anos. Então a qualidade com que ele chega no rio Pardo, apesar de ser classificado como um rio de classe 4, ele chega com uma qualidade muito boa”

Vale lembrar que um rio enquadrado na classe 4 apresenta um nível elevado de poluição. Nessas condições, ele recebe esgoto doméstico e outros resíduos, enquanto a baixa quantidade de oxigênio na água dificulta a sobrevivência de peixes e outras espécies aquáticas.

Classes de enquadramento dos corpos d’água – Foto: Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA)

Marcas da urbanização

Embora os indicadores químicos da Cetesb mostrem uma certa evolução, o aspecto visual do ribeirão Preto ainda conta uma história de degradação.

Para o biólogo Danilo Boscolo, professor da USP (Universidade de São Paulo), essa realidade é nítida na coloração da água, já que o ribeirão não é mais “Preto”, mas sim marrom, devido ao excesso de sedimentos que descem para o leito nos trechos onde a mata ciliar foi suprimida.

Historicamente, o nome que batizou o município remete ao um tempo em que as águas do ribeirão possuíam um tom escuro. Isso era causado devido à vegetação nativa, pelas características do solo e pela matéria orgânica no leito do rio.

“Ele é um rio urbano. Ele tem todas as características de um rio que passa praticamente todo o seu curso em áreas urbanas. E, além disso, as partes que não são urbanas são partes que não têm as margens conservadas adequadamente”.

Essa avaliação é compartilhada pelo engenheiro civil, ambientalista e ex-professor da USP, Marcelo Marini, que considera ruim o enquadramento do rio como classe 4.

Segundo ele, essa classificação exige apenas que a água não tenha mau cheiro. Além da poluição, Marini afirma que o rio está cercado pelo asfalto e perdeu grande parte da vegetação nativa que deveria existir em suas margens, nas chamadas Áreas de Preservação Permanente (APPs).

“Ele é um rio sofrível […] só para você ter ideia, ele já nasce, já atribuem a ele uma classe horrível de qualidade. Ele tá encaixotado em boa parte da vida dele. O ribeirão Preto tem uma péssima qualidade de água também por receber muitos efluentes, muito esgoto, muita coisa assim”.

Apesar do cenário, a vida ainda resiste

Mesmo diante da poluição e da canalização, o ribeirão Preto ainda abriga algumas espécies. Para Boscolo, porém, isso não significa que a água esteja em boas condições, já que alguns animais conseguem se adaptar a ambientes degradados.

“Essas tartarugas que tem lá [no ribeirão], elas são bem resistentes. Você consegue ver que elas estão na parte mais urbanizada dele, que é ali na frente da rodoviária. Mas a presença das tartarugas não indicam muito sobre a qualidade dela, porque elas são bem generalistas”, explica o biólogo.

Além das tartarugas, capivaras e diversas espécies de aves também podem ser observadas ao longo do ribeirão, especialmente em trechos com maior presença de vegetação.

Segundo os especialistas, a permanência desses animais está ligada à capacidade de adaptação de algumas espécies e à função que o curso d’água ainda exerce como corredor ecológico.

“Tem animal que é muito seletivo. A onça-pintada, por exemplo, precisa de áreas bem preservadas. Já a onça-parda, o lobo-guará e o tamanduá-bandeira conseguem viver em ambientes mais alterados”, explica Perini.

Grupo de capivaras foi flagrado em março de 2023 na via Norte, avenida que margeia o ribeirão Preto - Foto: reprodução/ EPTV.
Grupo de capivaras foi flagrado em março de 2023 na via Norte, avenida que margeia o ribeirão Preto – Foto: reprodução/ EPTV.

Ainda de acordo com os especialistas, esses animais utilizam as margens do ribeirão como um corredor ecológico, conectando fragmentos de vegetação nativa e permitindo o deslocamento da fauna entre diferentes áreas da região.

No entanto, essa “fauna invisível” para muitos moradores enfrenta obstáculos cada vez maiores. Segundo Danilo Boscolo, a expansão urbana e a construção de grandes avenidas sobre o rio criam barreiras que dificultam a circulação dos animais.

Sem estruturas adequadas para a passagem da fauna, como túneis e passagens subterrâneas, muitos desses deslocamentos terminam em atropelamentos, colocando em risco tanto os animais quanto os motoristas.

“Para animais arbóreos, você tem pontes de passagem de fauna. E para animais que não são arbóreos, geralmente tem um túnel ou alguma estrutura. Com a cidade avançando sobre o rio e o rio mantendo essa capacidade de ter os animais, a não construção dessas passagens é um risco tanto para os animais quanto para as pessoas que estão lá dirigindo. Você cria um risco de trânsito ali”.

Vista aérea de Ribeirão Preto – Foto: Reprodução/EPTV

O futuro do rio que deu nome à cidade

Para os especialistas, os avanços no tratamento de esgoto mostram que a recuperação ambiental do ribeirão Preto é possível, mas a preservação do curso d’água depende de ações que vão além do saneamento.

Na avaliação de Marcelo Marini, um dos principais desafios é recuperar as áreas de vegetação nativa que deveriam existir nas margens do rio. Segundo ele, a ocupação dessas faixas por ruas, avenidas e construções compromete a qualidade da água e reduz a capacidade do ribeirão de sustentar a biodiversidade.

“Se você quiser um corpo d’água com qualidade, a primeira coisa que tem que fazer é recuperar a vegetação onde ela deveria existir. Você mede os 30 metros de APP e encontra asfalto. Então esse é um problemão”, afirma.

Para Danilo Boscolo, o futuro do ribeirão também deve passar por uma mudança na forma como a cidade enxerga seus cursos d’água. Em vez de serem tratados apenas como canais de drenagem, rios e córregos precisam ser reconhecidos como ambientes vivos, capazes de abrigar espécies e prestar serviços ambientais importantes para a população.

“As pessoas têm uma percepção muito ruim do rio, mais como um esgoto do que como um rio. E isso faz com que elas não o reconheçam como um patrimônio de bem-estar, cultural ou histórico. Dentro da cidade, acho que esse é o principal ponto, fazer com que as pessoas se sintam donas desse patrimônio. Elas acabam se afastando dele porque não é agradável estar perto dele”.

Ainda de acordo com o biólogo, a recuperação dos rios e a prevenção de enchentes passam, também, pela preservação da vegetação nas margens dos cursos d’água.

Ele explica que as enchentes não acontecem apenas por causa do volume intenso de chuva, mas também pela ausência ou degradação das matas ciliares, que desempenham um papel fundamental no equilíbrio ambiental.

Essas áreas de vegetação ajudam a reduzir a velocidade com que a água da chuva escoa pela superfície, favorecendo sua infiltração no solo e a recarga dos aquíferos.

“Com essas matas conservadas o excesso de água não acaba todo no rio,  que enche menos e tem menor chance de inundar inclusive ruas e áreas urbanas. Também,  a água acaba correndo mais limpa para o rio, ajudando a restaurar sua sanidade”.

Ainda de acordo com o biólogo, a recuperação dos rios e a prevenção de enchentes passam, também, pela preservação da vegetação nas margens dos cursos d’água.

Ele explica que as enchentes não acontecem apenas por causa do volume intenso de chuva, mas também pela ausência ou degradação das matas ciliares, que desempenham um papel fundamental no equilíbrio ambiental.

Essas áreas de vegetação ajudam a reduzir a velocidade com que a água da chuva escoa pela superfície, favorecendo sua infiltração no solo e a recarga dos aquíferos.

“Com essas matas conservadas o excesso de água não acaba todo no rio,  que enche menos e tem menor chance de inundar inclusive ruas e áreas urbanas. Também,  a água acaba correndo mais limpa para o rio, ajudando a restaurar sua sanidade”, explica o professor.

Apesar dos desafios, Otávio Okano destaca que novas iniciativas de saneamento podem contribuir para melhorar ainda mais a qualidade da água ao longo dos próximos anos.

Um dos exemplos é a estação de tratamento de esgoto em implantação em Cravinhos, município onde o ribeirão nasce.

Segundo ele, a obra deverá reduzir a carga de poluentes lançada no curso d’água ainda nos primeiros quilômetros de seu percurso, ampliando os ganhos ambientais observados nas últimas décadas com a universalização do tratamento de esgoto em Ribeirão Preto.

“Você vai resolver um problema que existe desde que Cravinhos existe. A gente vai ter uma melhoria da qualidade da água desde a nascente até a foz, no rio Pardo”, afirma.

O gerente da Cetesb revela ainda que, após a entrada em operação da estação, o órgão pretende estudar a reclassificação do ribeirão, que hoje é enquadrado como classe 4.

“Nós estamos pensando, logo após a implantação da ETE de Cravinhos, reclassificar o rio, não deixá-lo mais como classe 4, mas passar primeiro para classe 3 e depois para classe 2, que já seria um rio com excelentes condições de sobrevivência da vida aquática”, diz.

Quiz: A Jornada do Ribeirão Preto

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Expedição Ribeirão: A Saúde do Rio

1. Segundo Marcelo Perini, qual a principal diferença técnica entre um “Ribeirão” e um “Córrego”?

  • A cor da água.
  • A presença de peixes.
  • A dimensão do corpo d’água (Ribeirão é maior).

2. Por que o biólogo Danilo Boscolo afirma que o rio hoje não é “Preto”, mas sim marrom?

  • Devido ao excesso de esgoto doméstico.
  • Pelo excesso de sedimentos causados pela falta de mata ciliar.
  • Por causa de corantes industriais vermelhos.

3. O Ribeirão Preto é classificado como “Classe 4”. O que isso significa tecnicamente?

  • Rio com alto nível de poluição e baixo oxigênio.
  • Rio com qualidade ideal para banho e pesca.
  • Rio que nasce em áreas de preservação integral.

4. Otávio Okano destaca que, há 25 anos, não ocorre um fenômeno grave no Rio Pardo. Qual?

  • Transbordamento das margens.
  • Seca total do leito.
  • Mortandade de peixes após chuvas fortes.

5. Para que o Ribeirão possa abastecer o distrito de Bonfim Paulista no futuro, o que deve acontecer?

  • A construção de uma nova rodovia.
  • A reclassificação para Classe 2 (melhoria da qualidade).
  • O fechamento das estações de tratamento.

6. Segundo Danilo Boscolo, a presença de tartarugas na área central indica que:

  • São animais resistentes e generalistas (não indicam boa qualidade).
  • A água está extremamente limpa e cristalina.
  • O ecossistema está em perfeito equilíbrio natural.

Este quiz foi elaborado com base nas entrevistas de Marcelo Perini, Danilo Boscolo e Otávio Okano sobre a realidade ambiental do Ribeirão Preto.

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Expedição Ribeirão

Este texto faz parte do projeto “Expedição ribeirão Preto”, uma série especial que percorre o caminho das águas que deram nome ao município de Ribeirão Preto, que celebra 170 anos em 2026. Ao longo das próximas semanas, serão publicadas reportagens que resgatam histórias, personagens, acontecimentos e memórias ligadas ao ribeirão que marcou o surgimento e o desenvolvimento da cidade.

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