Luzes que não se apagam: o legado dos cinemas de rua no Centro de Ribeirão Preto

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Com os avanços tecnológicos e as chegadas dos streamings, a necessidade de espaços próprios para assistir a filmes foi diminuindo e, com isso, os cinemas de rua foram desaparecendo, deixando para trás uma das características marcantes do Centro de Ribeirão Preto.

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Houve uma época em que a região Central era sinônimo de cultura, onde a população se reunia para visitar e participar de atividades de lazer como teatro, feiras, museus, restaurantes e os famosos cinemas de rua.

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Panfleto de divulgação da programação dos cinemas publicado no jornal Diário da Manhã em 19 de maio de 1977 (Foto: Arquivo pessoal do cinéfilo e crítico Aurélio Cardoso)

Sétima arte no Centro de Ribeirão Preto

Do início dos anos 1970 ao fim da década de 1980, Ribeirão Preto viveu o momento áureo dos cinemas de rua. Cine Bristol, Pedro II, Cine Plaza, São Jorge, Centenário e Cine São Paulo eram os nomes dos locais que agitavam o dia a dia dos cidadãos ribeirão-pretanos que frequentavam o Centro.

Aurélio Cardoso é um cinéfilo e crítico de cinema de Ribeirão Preto e gosta de lembrar como nos cinemas do centro se formavam filas e filas até altas horas da noite, o que tornava o local mais seguro para transeuntes. 

Aurélio também afirma que a movimentação no Centro da cidade era diretamente relacionada à exibição de filmes. “Quando os cinemas acabaram no Centro, o movimento acabou também.” Essas salas também fazem falta para a população, pois eram espaços que proporcionavam interação entre os frequentadores. 

Aurélio Cardoso gosta de lembrar que nos cinemas do centro se formavam filas até altas horas da noite (Foto: Arquivo pessoal do cinéfilo Aurélio Cardoso)

Antigamente, as grandes salas de exibição de filmes que comportavam centenas de espectadores, a localização acessível para a maioria da população, os ingressos com baixo custo e os espaços de socialização no hall de entrada, eram atrativos, chamavam a atenção de um público maior e permitiam que a população criasse uma identidade cultural e uma maior conexão com o Centro. Alguns espaços, como o Cine São Paulo, continham até um bar e um lounge para maior interação.

Além disso, parte da sociedade da época movimentava a economia das imediações, ao aproveitar o tempo após o filme para circular nas proximidades, interagir, frequentar lanchonetes, sorveterias e restaurantes.

O projecionista 

Carlos Eduardo da Silva, conhecido como Duda, de 64 anos, afirma que o seu amor pelos cinemas começou quando, aos 9 anos, um primo o levou às salas pela primeira vez para assistir o então lançamento de “Um Dólar Furado”. Aos 10,  já havia montado seu próprio “cinema” com uma caixa de pasta de dente, usando fotogramas descartados para projetar imagens na parede da escola, simulando uma câmara escura.

Duda conta que, quando voltou à Ribeirão Preto, após passar um ano na Força Aérea, começou a trabalhar na empresa de cinema São Paulo e Minas, de Wilton Figueiredo, um dos maiores nomes de salas de cinema do Brasil na época. “Eu estagiei no Cine Plaza, mas nessa idade você desperta pra vida, né? E percebe que trabalhar em cinemas não dá bom salário.”

Após seu curto período nas salas, ele se viu afastado dos cinemas por anos, trabalhou na televisão, mas, apesar de gostar do seu trabalho, queria ser cinegrafista. Passou, então, a trabalhar no Cine Clube Cauim, onde foi operador cinematográfico por doze anos, desde a película ao formato atual, o digital.

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Duda em uma sala de projeção, já no sistema digital, no Cineclube Cauim (Foto: Arquivo pessoal do projecionista Carlos Eduardo)

O Cine Cauim, antigo local de trabalho de Duda, ainda tenta manter aquela magia e recebe estudantes da rede municipal, exibindo filmes. “Algumas vezes, eu levava 20-30 crianças para a sala de projeção e explicava como funcionava, sobre a câmara escura, e aí lembrei daquela caixa de colgate e do meu primeiro ‘cinema’”.

Cenário atual

Hoje, em Ribeirão Preto, existem cinco cinemas em atividade e quatro deles estão nos shoppings centers. É importante destacar que, de acordo com dados da Ancine de 2025, existem hoje 3.510 salas de cinema em funcionamento no País, sendo mais de 2.400 em shoppings centers. Trata-se de uma diferença significativa em relação ao ano de 1975, quando existiam 3.276 salas nas ruas e as produções nacionais ocupavam 30% das exibições.

Além disso, os avanços tecnológicos possibilitaram o nascimento dos streamings, que trazem o conforto e a acessibilidade de assistir a mais filmes por um preço menor e sem sair de casa.  

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O cineclube Cauim funcionou por anos no antigo Cine Bristol, na rua São Sebastião (Foto: Arquivo pessoal do projecionista Carlos Eduardo)

Atualmente, o Cine Cauim, é o único cinema de rua restante na cidade que continua ativo. Casa do projeto social “Escola Vai ao Cinema”, instaurado nos anos 1990, continua recebendo estudantes da rede municipal de ensino para sessões de filme, promovendo a difusão cultural por meio da sétima arte com o projeto “Escola vai ao Cinema”, porém ele teve sua capacidade reduzida e não reside mais no Centro. 

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Atual sede do Cineclube Cauim, na rua Olavo Bilac 135 (Foto: Duda Dantas)

Restaurando 

O Cine São Paulo, localizado no histórico edifício Diederichsen, foi um dos muitos cinemas de rua no centro de Ribeirão Preto que marcaram a história da cidade. O prédio fica localizado na rua Álvares Cabral, 469, e está presente desde os primórdios da cidade, sendo considerado um marco histórico desde sua inauguração em 1937. O cinema, que foi fechado em 1992, era considerado um dos mais importantes e luxuosos do centro da cidade. 

Atualmente, o prédio se encontra em processo de restauração e em posse da Santa Casa, como pedido no testamento de Antônio Diederichsen.

Edgard de Castro é membro atuante do Instituto Paulista de Identidades Culturais (IPCIC) e produtor de cinema de grandes clássicos brasileiros, como Cortiço (1976) e Paranoia (1977). 

O IPCIC, que está por trás do processo de restauração do prédio, visa restabelecer o cinema e trazer de volta atrativos culturais ao centro da cidade. “Vai ser um grande Airbnb, com um restaurante em cima e o cinema”, afirma Edgard. 

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Anteprojeto da proposta de restauração do Edifício Diederichsen
Crédito: IPCIC

Os cinemas de rua fizeram parte da vida de ribeirão-pretanos, como Duda, que teve sua vida moldada pelas produções audiovisuais. Resgatar esses polos culturais do Centro restaura a conexão entre a sociedade e uma cultura que há muito se perdeu, pavimentando o futuro da cultura e da história, deixando um legado para as gerações futuras.

“Um povo sem memória é um povo sem história. E um povo sem história está fadado a cometer, no presente e no futuro, os mesmos erros do passado.” Emília Viotti da Costa, historiadora

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Vozes da Nossa Gente

O projeto Vozes da Nossa Gente é um projeto multiplataforma acidade on Ribeirão em parceria com o curso de Jornalismo da Unaerp

Com foco no jornalismo hiperlocal e buscando uma maior conexão com a comunidade, o “Vozes da Nossa Gente” pretende inspirar com boas histórias, que serão contadas de maneira humanizada pelos moradores de oito bairros de Ribeirão Preto.

Essa produção é dos alunos do curso de Jornalismo da Unaerp Eduarda Dantas, Gabriel Yamada e Isabella Randi, sob supervisão dos professores Gil Santiago, Guilherme Nali e Elivanete Zuppolini Barbi.

Uma iniciativa do acidade on em parceria com os alunos da 3ª etapa de Jornalismo da Unaerp.

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