| Por: Adalberto Luque |
Ribeirão Preto chega aos 170 anos, neste 19 de junho, ostentando posições de destaque. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), tem um Produto Interno Bruto (PIB) de R$ 52,3 bilhões, consolidando-se entre as cidades mais ricas do Brasil, à frente de várias capitais.
Também figura entre as cidades mais populosas, ocupando a 8ª posição no Estado de São Paulo e destacando-se como uma grande capital regional. Polo do agronegócio, universitário e comercial, destaca-se na prestação de serviço e no setor de saúde, com destaque para o Hospital das Clínicas, que recebe pacientes de todas as regiões brasileiras.
Mas antes de se tornar município, as terras que hoje compõem a cidade eram, inicialmente, habitadas pelos índios caiapós. Em 1850, formavam apenas um conglomerado de fazendas dependentes, que pertenciam ao Distrito de São Simão.
O desmembramento ocorreu anos mais tarde, quando Ribeirão Preto foi elevada à categoria de vila, até sua fundação, em 19 de junho de 1856, a partir da doação de terras para a construção de uma capela dedicada a São Sebastião.
Chamou-se Capela de São Sebastião do Ribeirão Preto, Vila de São Sebastião do Ribeirão Preto, Vila de Entre Rios, até levar o nome de seu principal curso d’água e tornar-se Ribeirão Preto.
Toda sua história de pujança, todavia, foi escrita em meio a crimes que marcaram época. Desde seus primeiros tempos, a cidade foi palco de grandes crimes que se destacaram, cada qual à sua época, com apelo popular, suposições e, na maioria dos casos, com muito sangue derramado.
O matador homossexual
Antes de os grandes homicídios, assaltos e organizações criminosas ocuparem o noticiário, Ribeirão Preto já convivia com a figura de um personagem que atravessaria mais de um século entre a história e a lenda. Diogo da Rocha Figueira, o Dioguinho, tornou-se o criminoso mais famoso da região de Ribeirão Preto no final do século XIX e passou a integrar o imaginário popular como símbolo de violência, mistério e poder.
Ligado ao ambiente dos coronéis do café, Dioguinho era agrimensor, mas ganhou notoriedade em uma região marcada por disputas políticas, conflitos por terras e forte influência das oligarquias rurais. Apontado como pistoleiro a serviço de fazendeiros influentes, teve o nome associado a dezenas de homicídios. O número exato de vítimas jamais foi esclarecido. Em um processo judicial, teria admitido 24 mortes, mas relatos da época e versões populares elevaram essa estimativa para mais de 50 e até uma centena de assassinatos.
A trajetória do bandoleiro ultrapassou os limites dos registros policiais. Ao longo dos anos, surgiram histórias que ajudaram a construir sua fama. Entre elas, a de que carregava um colar feito com as orelhas das vítimas e a crença de que possuía o chamado “corpo fechado”, tornando-se imune às balas. Essas narrativas foram transmitidas de geração em geração e reforçaram a imagem de um homem cercado por temor e superstição.
O desfecho de sua história contribuiu ainda mais para a construção do mito. Em 1897, após uma perseguição policial nas proximidades do rio Mogi-Guaçu, Dioguinho foi oficialmente dado como morto. No entanto, a ausência de provas consideradas definitivas alimentou dúvidas que persistiram por décadas. Para parte da população, ele teria escapado do cerco e desaparecido sem deixar rastros.
A força dessa memória popular inspirou diversos pesquisadores e escritores. Entre eles está o jornalista João Duarte Garcia Neto, autor de “Dioguinho, o Bandido dos Punhos de Renda”, obra que explora as múltiplas versões sobre o personagem. Em pesquisa de mestrado desenvolvida na Universidade Estadual de Londrina, Nilce Camila de Carvalho observa que as contradições entre documentos, relatos orais e obras literárias acabaram transformando Dioguinho em uma figura que permanece dividida entre o criminoso real e a lenda criada pelo povo.
Coronel de saia
Poucas figuras exerceram tanto poder econômico e político na história de Ribeirão Preto quanto Iria Alves Ferreira. Conhecida como Rainha do Café e “Coronel de Saia”, ela comandou um dos maiores impérios cafeeiros do interior paulista no início do século XX. Dona da Fazenda Pau Alto e integrante da influente família Junqueira, construiu uma imagem ligada à filantropia, à religiosidade e à prosperidade proporcionada pelo café.
Essa trajetória foi abalada por um dos episódios criminais mais rumorosos da época. O chamado Crime de Cravinhos mobilizou a imprensa, autoridades e a elite regional. O caso é analisado pelo historiador Alexandre F. Mattioli em sua dissertação sobre o poder da família Junqueira durante a Primeira República, trabalho de mestrado apresentado na Universidade Federal de Uberlândia.

Segundo as investigações, Iria teria participado do planejamento do assassinato do francês Alphonse Delforge, apontado como marido de uma de suas filhas. A versão mais difundida sustenta que o estrangeiro veio ao Brasil para reivindicar direitos sobre uma herança familiar. Em maio de 1920, seu corpo foi encontrado próximo ao Espraiado, em Cravinhos, com sinais de extrema violência.
Depoimentos colhidos pela polícia levaram à prisão de vários suspeitos e acabaram apontando também para Alexandre Silva, administrador das propriedades de Iria, e para a própria fazendeira. A repercussão rapidamente ultrapassou os limites da região. Jornais de circulação estadual e nacional passaram a acompanhar o caso, enquanto publicações oposicionistas retratavam a cafeicultora como mandante do crime.
A investigação transformou-se em uma disputa que envolveu justiça, influência política e rivalidades locais. Conforme destaca Alexandre F. Mattioli, a defesa mobilizou importantes aliados da família Junqueira e contestou as provas apresentadas pela acusação. Ao final, o Tribunal de Justiça de São Paulo considerou improcedente a denúncia contra Iria Alves Ferreira e Alexandre Silva, que foram libertados sem passar por julgamento.
A absolvição, porém, não apagou os efeitos do escândalo. Mesmo sustentando sua inocência até o fim da vida, Iria nunca recuperou plenamente o prestígio de outrora. A antiga Rainha do Café deixou Ribeirão Preto e passou a viver no Palacete Junqueira, em São Paulo, longe da cidade onde construiu sua fortuna. O afastamento definitivo foi interpretado por historiadores como uma espécie de exílio voluntário, encerrando a trajetória de uma das personagens mais influentes da história regional.
O caso Nicole
O assassinato de Selma Heloísa Artigas da Silva, conhecida como Nicole, tornou-se um dos casos criminais mais marcantes da história de Ribeirão Preto. A crueldade da morte, a demora para a realização do julgamento e o desfecho judicial fizeram com que o episódio permanecesse na memória da cidade mesmo décadas após o crime.
Nicole tinha 22 anos, era natural de Franca, mãe de dois filhos e estava grávida quando morreu, na madrugada de 11 de setembro de 1998. Ela trabalhava como garota de programa. Conforme a investigação que embasou a denúncia do Ministério Público, estava em uma caminhonete conduzida pelo empresário Pablo Russel Rocha quando ocorreu uma discussão. A acusação sustentou que a jovem foi presa ao veículo pelo braço esquerdo com o cinto de segurança e lançada para fora da caminhonete. Em seguida, foi arrastada por aproximadamente 2,5 quilômetros por ruas da cidade.

O corpo foi encontrado na avenida Caramuru, zona Oeste. A violência do arrasto provocou mutilações e chocou moradores, policiais e equipes de resgate que atenderam a ocorrência. Desde os primeiros dias, o caso ganhou grande repercussão e passou a ser acompanhado com atenção pela população. A defesa sustentou que a morte teria sido resultado de um acidente, que ela teria ficado presa ao descer, mas o som alto do carro impediu o motorista de ouvi-la. Contudo, os laudos periciais apontaram elementos que reforçaram a tese de homicídio apresentada pela acusação.
Apesar da repercussão e da gravidade dos fatos, o processo se arrastou por muitos anos. Recursos, discussões técnicas e sucessivos desdobramentos judiciais prolongaram a tramitação, transformando o caso em um dos mais demorados da história recente do Judiciário regional. O julgamento pelo Tribunal do Júri só ocorreu em junho de 2016, dezoito anos depois do crime.
Após horas de debates entre acusação e defesa, os jurados reconheceram a responsabilidade do réu pela morte de Nicole. Pablo Russel Rocha foi condenado por homicídio triplamente qualificado, por motivo fútil, emprego de meio cruel e utilização de recurso que dificultou a defesa da vítima. A pena foi fixada em 24 anos de prisão.
Mesmo após a condenação, o processo continuou gerando recursos e pedidos de revisão. Com o avanço das progressões previstas na legislação penal, Pablo Russel Rocha deixou o regime fechado e passou a cumprir a pena em condições mais brandas. Embora tenha sido condenado a 24 anos de prisão pelo Tribunal do Júri, permaneceu preso por período inferior ao total da pena fixada na sentença, encerrando um dos processos criminais de maior repercussão da história de Ribeirão Preto.
O caso do menino Joaquim
O desaparecimento do menino Joaquim Ponte Marques, de apenas 3 anos, transformou-se em um dos casos criminais de maior repercussão da história de Ribeirão Preto. Em novembro de 2013, a notícia de que a criança havia sumido da casa onde vivia, no Jardim Independência, zona Norte, mobilizou forças de segurança, voluntários e moradores. Nas primeiras horas, a principal hipótese era de rapto. Buscas foram realizadas em diversos pontos da cidade, enquanto a imagem do garoto se espalhava pelos meios de comunicação de todo o País.

A expectativa de encontrá-lo com vida terminou cinco dias depois, quando o corpo foi localizado nas águas do Rio Pardo, em Barretos. A descoberta provocou comoção nacional e deu novo rumo às investigações. Os indícios reunidos pela Polícia Civil passaram a apontar para pessoas do próprio convívio da criança. Pouco tempo depois, o padrasto, Guilherme Raymo Longo, e a mãe, Natália Mingoni Ponte, foram presos sob suspeita de envolvimento no crime.
A brutalidade do caso ampliou a indignação popular. A acusação sustentou que Joaquim morreu após receber uma dose excessiva de insulina e que seu corpo foi posteriormente descartado para ocultar o homicídio. A vítima era uma criança pequena, incapaz de oferecer qualquer reação ou defesa, circunstância que contribuiu para tornar o episódio ainda mais chocante.
Apesar da repercussão, a conclusão do processo demorou anos. Em 2016, beneficiado por uma decisão judicial que lhe permitia responder em liberdade, Guilherme Longo deixou o país. A fuga prolongou ainda mais a espera por um julgamento. Ele foi localizado na Espanha, preso por agentes internacionais e posteriormente extraditado para o Brasil, retornando ao sistema prisional para responder às acusações.
Somente em 2023, quase uma década após a morte de Joaquim, o caso chegou ao Tribunal do Júri. Após vários dias de depoimentos, perícias e debates entre acusação e defesa, os jurados condenaram Guilherme Longo por homicídio qualificado. Natália Ponte, acusada de omissão, foi absolvida. A sentença fixou pena de 40 anos de prisão ao padrasto, encerrando judicialmente uma tragédia que marcou a cidade e permaneceu por anos como símbolo da demora pela resposta da Justiça a um crime que comoveu o Brasil inteiro.
O ataque de R$ 51,2 milhões
Dez anos depois, o mega assalto à base da Prosegur, na avenida Saudade, nos Campos Elíseos, continua entre as ações criminosas mais ousadas já registradas no interior paulista. Na madrugada de 5 de julho de 2016, uma quadrilha com cerca de 40 integrantes transformou a região dos Campos Elíseos em um cenário de guerra e levou R$ 51,2 milhões da empresa de transporte de valores.
A operação começou pouco depois das 04h00. Em aproximadamente 15 veículos, os criminosos chegaram à cidade e colocaram em prática um plano minuciosamente preparado. Cruzamentos estratégicos foram bloqueados com caminhões e uma retroescavadeira. Miguelitos foram espalhados pelas ruas para dificultar perseguições e transformadores de energia foram atingidos a tiros, provocando apagões em parte da zona Norte.

Enquanto moradores acordavam assustados com explosões e rajadas de fuzil, os assaltantes cercavam a transportadora. Armados com fuzis de alto calibre e munição .50, utilizaram explosivos para romper as estruturas do cofre. A ação durou cerca de 40 minutos. O volume de disparos foi tão intenso que muitos moradores permaneceram escondidos dentro de casa durante o ataque.
A fuga também foi marcada pela violência. O cabo da Polícia Militar Rodoviária Tarcísio Wilker Gomes, de 43 anos, foi atingido por um disparo na cabeça durante acompanhamento aos criminosos na Rodovia Anhanguera (SP-330). Com 14 anos de corporação, ele não resistiu aos ferimentos. A segunda vítima foi Ubiratan Soares Berto, de 38 anos, homem em situação de rua que sofreu ferimentos graves durante a ação e morreu no dia seguinte, no Hospital das Clínicas.
As investigações mobilizaram forças estaduais e federais, além do Gaeco e de setores especializados das Polícias Civil e Militar. Dias após o crime, veículos blindados usados pela quadrilha, armas e parte dos equipamentos empregados na ação foram localizados em áreas rurais da região. Cerca de R$ 4 milhões do dinheiro roubado foram recuperados.
O trabalho policial levou à identificação de diversos integrantes do grupo. Em dezembro de 2018, quatro acusados foram condenados por organização criminosa, roubo e latrocínio. Somadas, as penas chegaram a quase 500 anos de prisão. Uma década depois, o assalto segue entre os maiores roubos a empresas de transporte de valores da história do país.
Crimes recentes sem solução
Mesmo após anos de investigações, alguns dos casos criminais mais emblemáticos registrados em Ribeirão Preto permanecem sem solução. Em comum, os inquéritos enfrentaram dificuldades para identificar os autores ou reunir provas suficientes para responsabilizar suspeitos, resultando em arquivamentos ou investigações sem conclusão.
Quem matou Milena Massafhera?
O homicídio de Milena Massafhera, de 34 anos, continua entre os casos mais lembrados da cidade. A mulher transexual foi encontrada morta em seu apartamento, na Vila Tibério, em fevereiro de 2021.
Segundo as investigações, a vítima sofreu quase 30 golpes de faca. Imagens de câmeras de segurança registraram a entrada de um homem no prédio, na companhia de Milena, poucas horas antes do crime. Posteriormente, o mesmo homem foi visto deixando o local sozinho.
A Polícia Civil analisou imagens, ouviu testemunhas e buscou identificar o suspeito, mas não conseguiu reunir elementos suficientes para apontar sua identidade ou estabelecer autoria. Diante da ausência de novas provas, o inquérito acabou arquivado.
Na saída da academia
Outro caso que segue sem desfecho é o assassinato do empresário Luiz Cláudio Mazzuca Filho, de 35 anos, executado na noite de 29 de setembro de 2022 ao deixar uma academia no Jardim Nova Aliança, na zona Sul da cidade.
Imagens de monitoramento mostraram que um veículo se aproximou do Porsche conduzido pela vítima no estacionamento. Dois homens desceram do carro e efetuaram dezenas de disparos com pistola e fuzil. A perícia contabilizou cerca de 35 tiros. Uma funcionária da academia também foi atingida e ficou ferida.
A investigação tratou o crime como uma execução premeditada. O celular da vítima foi apreendido e a Justiça autorizou a quebra de seu sigilo telefônico para auxiliar na apuração de possíveis ameaças, contatos e circunstâncias que pudessem esclarecer a motivação do homicídio. Apesar das imagens e dos depoimentos colhidos, ninguém foi preso pelo crime.
Chacina na zona Norte
Em 2025, Ribeirão Preto registrou 31 vítimas de homicídio doloso. Muito abaixo dos 181 mortos intencionalmente em 2001, quando a Secretaria da Segurança Pública começou a divulgar os dados da estatística criminal da cidade. Numero também bem abaixo dos 82 casos ocorridos em 2012, ano de um dos maiores ataques registrados em Ribeirão Preto.

Entre os dias 19 e 20 de outubro daquele ano, cinco pessoas foram mortas e pelo menos sete feridas – há fontes que apontem para nove sobreviventes. Os crimes foram registrados em curto intervalo de tempo em três bairros da zona Norte: Avelino Alves Palma, Ipiranga e Adelino Simioni.
Testemunhas relataram a utilização de motocicletas e de um carro escuro, identificado como um Honda Civic. Pelas características das execuções, os episódios mobilizaram uma ampla operação de investigação.
As investigações conduzidas pela Polícia Civil apontaram um PM como principal suspeito, mas o processo criminal foi arquivado pelo Ministério Público de São Paulo (MPSP) em 2014, por falta de provas materiais ou testemunhas que confirmassem a participação do suspeito nos homicídios. As mortes nunca foram esclarecidas.
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