Cirurgia foi a primeira do SUS a associar a técnica Olif, que realiza o acesso cirúrgico pela lateral do abdômen, ao uso de um sistema de navegação guiado por robô
Marcos de Assis (HC)
O Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (HCFMRP-USP) realizou um procedimento de artrodese de coluna em uma paciente com diagnóstico de discoartrose lombar, uma condição de desgaste que afeta a sustentação mecânica do corpo.
A cirurgia foi a primeira do Sistema Único de Saúde (SUS) a associar a técnica Olif, que realiza o acesso cirúrgico pela lateral do abdômen, ao uso de um sistema de navegação guiado por robô. A operação foi realizada no HC Ribeirão, utilizando implantes específicos para a sustentação da estrutura da coluna vertebral.
Antes mesmo de pegar no bisturi, o cirurgião realiza todo o procedimento de forma virtual, simulando a cirurgia em um computador integrado ao robô. Na tela, que é sensível ao toque e funciona com a mesma facilidade de um celular, o médico estuda a imagem tridimensional da coluna da paciente, podendo rotacionar a figura em qualquer direção, avaliar ângulos e testar digitalmente o encaixe dos pinos e implantes no local exato do desgaste.
Essa preparação tecnológica funciona como um mapa de navegação: mesmo durante o procedimento real, o robô guia os passos do profissional e a tela tridimensional serve como orientação em tempo real, garantindo que cada movimento em centro cirúrgico siga milimetricamente o plano virtual traçado.
O neurocirurgião de coluna José Augusto Malheiros, foi o comandante da cirurgia, e explica a opção pela abordagem anatômica utilizada. “Através de um sistema de tubos minimamente invasivos, atingimos a coluna de uma maneira muito mais rápida”, diz.
“O posicionamento do paciente de lado permite preservar a musculatura e os ligamentos da região posterior da coluna, caminhos utilizados nas abordagens cirúrgicas tradicionais para descompressão e estabilização”, emenda.
A mudança na via de acesso altera o tempo de duração e a dimensão dos dispositivos implantados na estrutura lombar. A cirurgia por via lateral foi concluída em um intervalo de 30 a 40 minutos, enquanto o método convencional posterior demanda mais de três horas.
“A principal diferença é que a gente não lesa, não agride tanto os planos musculares, osso, igual fazia nas cirurgias convencionais”, afirma Malheiros. O cirurgião pontuou que o espaçador inserido pela lateral possui uma área de contato cinco vezes maior do que os dispositivos colocados por via posterior.
De acordo com o assistente do grupo de coluna do setor de ortopedia, Mateus Defino, o sistema atua no reconhecimento do campo tridimensional do paciente e faz o direcionamento dos parafusos pediculares pela região posterior.
“Isso aumenta a precisão e diminui a necessidade de utilizar, por exemplo, a escopia intraoperatória, que é o raio-x”, explicou o ortopedista. A automação do trajeto dos parafusos retira variáveis técnicas do procedimento, baseando-se em dados coletados por sensores espaciais.
O cirurgião José Augusto Malheiros complementou afirmando que a demonstração da viabilidade dessa técnica no SUS pode servir de referência para a organização de políticas públicas voltadas ao tratamento universal de patologias de coluna. O médico Mateus Defino disse que “eu espero que isso se torne uma rotina”.
O cirurgião José Augusto Malheiros complementou afirmando que a demonstração da viabilidade dessa técnica no SUS pode servir de referência para a organização de políticas públicas voltadas ao tratamento universal de patologias de coluna.
Técnica – A técnica Olif (sigla em inglês para Oblique Lateral Lumbar Interbody Fusion, ou Fusão Intervertebral Lombar Lateral Oblíqua) é uma técnica de cirurgia de coluna minimamente invasiva. Ela serve para realizar a artrodese (fusão das vértebras) acessando a coluna lombar pela lateral do corpo, e não pelas costas ou pela frente da barriga.
O grande diferencial da Olif é o caminho anatômico que o cirurgião utiliza para chegar até os discos e vértebras desgastados. O posicionamento do paciente de lado permite preservar a musculatura e os ligamentos da região posterior da coluna.
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