Dormir demais pode estar associado a maior risco de demência; Professor de Ribeirão Preto explica

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Quando o assunto é sono, os extremos parecem representar os maiores riscos. Estudos mostram que tanto dormir pouco quanto dormir demais estão associados a piores desfechos de saúde. Agora, uma nova meta-análise publicada pela York University, de Toronto, Canadá, observou que pessoas que relataram dormir mais de oito horas por noite apresentaram um risco 28% maior de desenvolver demência em comparação com aquelas que dormiam entre sete e oito horas.

O resultado reforça a preocupação com os extremos da duração do sono ao apontar uma associação entre o excesso de sono e o desenvolvimento da doença. Mas isso não significa que dormir mais seja, necessariamente, a causa do problema. É o que explica o professor de Neurologia da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP, Alan Eckeli.

“Quando a gente analisa a relação entre tempo de sono e saúde, observa uma espécie de curva em U. Isso significa que tanto quem dorme pouco quanto quem dorme muito apresentam maior risco de problemas de saúde e até de mortalidade. No caso das pessoas que costumam dormir mais de nove horas por noite, os estudos mostram uma associação com esse aumento de risco. Mas isso não quer dizer que dormir mais seja a causa do problema”, afirma. Ele explica que o sono prolongado pode ser um sinal de outras condições de saúde, como doenças neurodegenerativas, depressão, apneia do sono e doenças cardiovasculares. “Muitas vezes o excesso de sono é uma manifestação dessas doenças e não o motivo pelo qual elas acontecem.”

Embora o excesso de sono possa estar associado a doenças que afetam o cérebro e outros sistemas do organismo, dormir mais do que o necessário também pode trazer efeitos imediatos. Segundo Eckeli, a necessidade de sono varia de pessoa para pessoa. “Quando o tempo de descanso ultrapassa de forma significativa o padrão habitual do indivíduo, o organismo pode apresentar alguns sinais de que o sono foi além do necessário”, alerta.

Quando se dorme mais do que o necessário, o corpo também apresenta manifestações. “A pessoa pode acordar mais lenta, com dificuldade para raciocinar, como se precisasse fazer mais esforço para pensar. Também pode surgir uma sensação de corpo dolorido, semelhante à relatada por pessoas com fibromialgia. Esses sintomas são sinais de que o organismo pode ter dormido além do que precisava”, afirma Eckeli.

Mesmo que a duração do sono seja frequentemente usada como indicador de descanso, não é suficiente para avaliar se uma pessoa está dormindo bem. “Aspectos como despertares frequentes durante a noite, dificuldade para atingir fases profundas do sono e a sensação de cansaço ao acordar também interferem na recuperação do organismo e na saúde cerebral. Por isso, passar mais tempo na cama não significa, necessariamente, obter os benefícios esperados do sono”, adianta.

A quantidade de sono é uma dimensão, enquanto a qualidade do sono é outra. “Não necessariamente quem dorme mais, dorme melhor. São aspectos diferentes, mas complementares. O mais importante é que cada pessoa tenha um tempo de sono adequado às suas necessidades e que esse sono tenha boa qualidade”, explica o professor.

Mas essa quantidade de sono segue sendo uma variável pessoal. Ainda assim, quando o tempo de sono aumenta de forma persistente em relação ao padrão habitual da pessoa, é importante observar outros sinais. Segundo o especialista, a sonolência excessiva durante o dia, cochilos involuntários, dificuldade para manter a atenção, alterações de humor, irritabilidade e queixas relacionadas à memória e à concentração podem indicar que algo não está funcionando adequadamente durante o sono. Nesses casos, ele recomenda procurar avaliação médica para investigar possíveis causas.

Sono ideal e prevenções

Embora a necessidade de sono varie entre os indivíduos, o professor analisa, com base no estudo da universidade canadense, que pesquisas populacionais permitem identificar uma faixa de duração mais frequentemente associada a melhores desfechos de saúde. “Estudos apontam que pessoas que dormem menos de seis horas ou mais de nove horas por noite costumam apresentar maior associação com desfechos desfavoráveis. Uma faixa associada a menores riscos para a saúde está no intervalo de sete a oito horas de sono. É o que mais frequentemente aparece associado a melhores desfechos de saúde”, afirma .

O tempo total de sono é individual e deve respeitar a necessidade de cada pessoa. “Quando observamos grandes estudos populacionais, vemos que a maior parte dos indivíduos que dormem entre sete e oito horas por noite está em uma faixa associada a menor risco de desfechos desfavoráveis. Mais importante do que atingir um número específico de horas é saber qual é a sua necessidade de sono e se ela está sendo respeitada.”

Além da duração do sono, outros hábitos do dia a dia também influenciam a saúde cerebral. O sedentarismo, por exemplo, está associado a pior desempenho cognitivo e pode contribuir para fatores que afetam o sono, como obesidade, sonolência excessiva e um descanso noturno mais fragmentado e menos restaurador. Em contrapartida, a prática regular de atividade física está relacionada à melhora da qualidade do sono e integra, ao lado de uma alimentação equilibrada, um conjunto de medidas consideradas importantes para a prevenção do declínio cognitivo ao longo da vida.

“Quando falamos em prevenção, pensamos em um conjunto de fatores. Dormir a quantidade adequada, ter um sono de qualidade, praticar atividade física regularmente e manter uma boa alimentação são medidas que ajudam a preservar a saúde geral e a reduzir o risco de prejuízo cognitivo no futuro. Quando sono inadequado, sedentarismo e condições como a obesidade se somam, esses fatores podem atuar de forma conjunta e aumentar esse risco ao longo do tempo”, conclui.

**Por Jornal da USP 



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