O Brasil registrou 16.533 mortes por suicídio em 2025, média de aproximadamente 45 por dia. O número representa aumento de 0,74% em relação ao ano anterior, segundo o Mapa da Segurança Pública 2026, divulgado pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública.
São Paulo teve 2.995 registros, o maior número absoluto entre os estados. O total ficou 2,53% acima do contabilizado em 2024, quando ocorreram 2.921 mortes.
Os dados do Mapa da Segurança Pública são fornecidos pelos estados e pelo Distrito Federal ao Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp) e estão sujeitos a revisão. O levantamento utiliza registros das autoridades estaduais e não deve ser comparado diretamente com os números do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde, que tem metodologia e período de consolidação diferentes.
O boletim epidemiológico mais recente do Ministério da Saúde dedicado ao tema analisou o período de 2010 a 2021. Nesse intervalo, a taxa de mortalidade por suicídio no Brasil cresceu 42%, passando de 5,2 para 7,5 mortes por 100 mil habitantes. Somente em 2021, foram registrados 15.507 óbitos, dos quais 77,8% ocorreram entre homens.
Naquele ano, o suicídio foi a terceira principal causa de morte entre brasileiros de 15 a 19 anos e a quarta entre pessoas de 20 a 29 anos.
O problema também mobiliza autoridades de saúde em todo o mundo. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que 727 mil pessoas morram por suicídio anualmente. Trata-se da terceira principal causa de morte entre pessoas de 15 a 29 anos. Cerca de 73% das ocorrências estão em países de baixa e média renda.
A entidade deixou de apresentar uma proporção mundial fixa entre mortes e tentativas e informa atualmente que, para cada suicídio, existem muitas outras tentativas. Uma tentativa anterior é considerada um dos fatores mais importantes para um novo comportamento suicida.
Problema tem múltiplas causas
O suicídio é reconhecido como um problema de saúde pública complexo e multifatorial. Fatores sociais, culturais, psicológicos, biológicos e ambientais podem estar envolvidos.
Transtornos mentais, como depressão e ansiedade, e o uso abusivo de álcool e outras drogas podem aumentar a vulnerabilidade, mas não explicam isoladamente todos os casos. Pessoas sem diagnóstico psiquiátrico também podem enfrentar crises diante de perdas, violência, isolamento, conflitos afetivos, dificuldades financeiras, discriminação, doenças ou dor crônica.
“O suicídio é um fenômeno complexo e não pode ser atribuído a uma única causa. A prevenção passa por ampliar o acesso ao cuidado em saúde mental, fortalecer redes de apoio e, principalmente, criar condições para que as pessoas consigam falar sobre o sofrimento e buscar ajuda”, afirma Érica Zampolo Miguel, coordenadora do curso de Psicologia da Faculdade Anhanguera.
Para a psicóloga Paula Carvalho, do Grupo São Lucas, não existe um único perfil de pessoa em risco. Algumas manifestam claramente o sofrimento, enquanto outras se tornam mais reservadas. Por isso, a atenção deve estar voltada principalmente às mudanças recentes ou à intensificação de determinados comportamentos.
Campanha passou a ser prevista em lei
Realizada no Brasil há mais de uma década, a campanha Setembro Amarelo foi oficialmente instituída pela Lei Federal nº 15.199, sancionada em 2025.
A legislação prevê ações anuais de conscientização sobre saúde mental e prevenção da automutilação e do suicídio. A norma também estabeleceu 10 de setembro como Dia Nacional de Prevenção do Suicídio e 17 de setembro como Dia Nacional de Prevenção da Automutilação.
Especialistas ressaltam, porém, que o cuidado não deve ficar restrito ao mês de setembro. A prevenção depende de acesso contínuo aos serviços de saúde, acompanhamento após crises e tentativas, redução do preconceito e fortalecimento das redes familiares e comunitárias.
Mudanças de comportamento podem ser sinais de alerta
Isolamento repentino, desesperança, despedidas incomuns e falas relacionadas à morte exigem atenção e acolhimento sem julgamentos
Não existe uma lista capaz de prever com certeza uma tentativa de suicídio. Alguns comportamentos, entretanto, podem indicar sofrimento intenso e precisam ser observados, principalmente quando surgem repentinamente, tornam-se mais frequentes ou aparecem de forma combinada.
Entre os sinais de alerta estão falas recorrentes sobre morte, falta de motivos para viver, desesperança, culpa ou a sensação de ser um peso para outras pessoas. Isolamento repentino, perda de interesse pelas atividades habituais, despedidas incomuns, distribuição de objetos importantes e mudanças acentuadas de humor também merecem atenção.
Alterações significativas no sono e na alimentação, aumento do consumo de álcool ou outras drogas, impulsividade, comportamento de risco e sofrimento emocional ou físico descrito como insuportável também podem indicar a necessidade de avaliação profissional.

Segundo a psicóloga Paula Carvalho, o risco é dinâmico e pode aumentar ou diminuir conforme o estado emocional e as circunstâncias enfrentadas pela pessoa. Histórico de tentativa anterior, desesperança intensa, isolamento social, perdas recentes e acesso facilitado a meios que possam provocar ferimentos são fatores que exigem atenção redobrada.
Como iniciar a conversa
Ao perceber mudanças preocupantes, familiares e amigos devem procurar um ambiente reservado e demonstrar disponibilidade para ouvir. A conversa precisa ocorrer sem julgamentos, críticas, comparações ou tentativas de diminuir o sofrimento relatado.
Perguntar de maneira clara se a pessoa pensa em machucar a si mesma ou tirar a própria vida não desperta esse comportamento. A abordagem direta pode abrir espaço para que ela fale sobre o sofrimento e aceite ajuda.
Frases como “isso vai passar”, “você precisa ser forte” ou “existem pessoas com problemas maiores” devem ser evitadas. O mais indicado é reconhecer a dor apresentada, ouvir com atenção e incentivar a procura por atendimento especializado.
Quando houver risco imediato, a pessoa não deve ficar sozinha. Também não se deve prometer segredo absoluto. Familiares, pessoas de confiança e profissionais de saúde precisam ser acionados.
Outra medida preventiva é reduzir, de forma segura e colaborativa, o acesso a objetos ou substâncias que possam ser utilizados em uma tentativa. Aumentar o tempo e a distância entre uma pessoa em crise e um meio potencialmente letal pode evitar uma decisão impulsiva.
Ideação e tentativa são situações diferentes
A ideação suicida corresponde a pensamentos relacionados à própria morte ou à possibilidade de tirar a própria vida. Pode variar desde o desejo de desaparecer ou não acordar até uma intenção mais estruturada.
A tentativa envolve a realização de um comportamento com a intenção de provocar a própria morte, mesmo que o resultado não seja fatal.
Já a autolesão não ocorre necessariamente com a intenção de morrer. Ainda assim, qualquer episódio precisa ser acolhido e avaliado por profissionais, porque pode indicar sofrimento emocional e aumentar a vulnerabilidade.
Após uma tentativa ou alta hospitalar, a continuidade do acompanhamento é fundamental. Entre as estratégias estão a construção de um plano de segurança, a identificação dos sinais pessoais de crise, a definição de pessoas e serviços que poderão ser acionados e a adoção de medidas para tornar o ambiente mais seguro.
Ribeirão tem atendimento de saúde mental 24 horas
Rede municipal recebe situações de urgência sem necessidade de agendamento; UBSs, CAPS, clínicas-escola e CVV também oferecem acolhimento
Pessoas que apresentam intenção atual de tirar a própria vida, planejamento, tentativa em andamento ou risco iminente precisam de atendimento imediato. Em Ribeirão Preto, elas podem procurar diretamente o Pronto Atendimento de Saúde Mental (PAM), que funciona 24 horas por dia, todos os dias da semana.
Inaugurada em junho deste ano, a unidade atende crianças, adolescentes e adultos em situações como risco de suicídio, crises psicóticas, agitação, alterações graves de comportamento, uso abusivo de álcool e outras drogas e crises agudas de ansiedade.
O acesso é feito por demanda espontânea, sem necessidade de agendamento ou encaminhamento prévio. A unidade possui equipe formada por psiquiatras, médicos clínicos, psicólogos, enfermeiros, assistentes sociais e terapeutas ocupacionais.
Pronto Atendimento de Saúde Mental
Rua Bruno Pelicani, 70, Quintino Facci II
Atendimento: 24 horas por dia
Telefone: (16) 98264-0670
Em situações de emergência também é possível procurar uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA), pronto-socorro ou hospital. O Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) pode ser acionado pelo telefone 192.
Atendimento pela rede municipal
Desde março, as Unidades Básicas de Saúde (UBSs) e as Unidades de Saúde da Família (USFs) de Ribeirão Preto também passaram a acolher situações consideradas de menor complexidade, como ansiedade e depressão leves, insônia, angústia e luto.
Os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) concentram o acompanhamento dos casos moderados e graves. A unidade indicada depende da idade, do local de residência e da necessidade apresentada pelo paciente.
Apoio emocional pelo CVV
O Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece apoio emocional gratuito, sigiloso e anônimo pelo telefone 188, durante 24 horas por dia. Também existem atendimentos por chat e e-mail no site cvv.org.br.
Em 2025, o CVV realizou aproximadamente 2 milhões de atendimentos com o trabalho de cerca de 3.200 voluntários. O serviço oferece escuta e apoio emocional, mas não substitui o atendimento médico em situações de risco imediato.
Clínicas-escola
A Faculdade Anhanguera informa que oferece atendimento psicológico para crianças, jovens e adultos em suas clínicas-escola de Ribeirão Preto, Sertãozinho e Franca. Há opções de atendimento individual, de casal e familiar.
Ribeirão Preto: Segunda a sexta-feira, das 16h às 22h. Agendamentos: (16) 99166-5512.
Sertãozinho: Segunda a sexta-feira, das 17h às 22h, com plantão psicológico. Agendamentos: (16) 3946-3473.
Franca; Segunda-feira, das 18h às 21h, e sexta-feira, das 15h às 19h. Inscrições: (16) 99625-2094.
Clique Aqui!

