A rotina e os desafios de um pequeno produtor rural em Ribeirão Preto: do cultivo à comercialização

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A rotina de um pequeno produtor é marcada por persistência, adaptação e, acima de tudo, paixão pela produção de alimentos. Em Ribeirão Preto e região, por exemplo, pequenos produtores mostram que mesmo diante de desafios climáticos, econômicos e até mesmo estruturais, é possível criar caminhos seus próprios – saiba mais abaixo.

De acordo com dados do último Censo Agropecuário, realizado em 2017 e divulgado em 2019, cerca de 77% dos estabelecimentos rurais no Brasil são de agricultura familiar, em sua maior parte formados por pequenos produtores.

Na região de Ribeirão Preto, segundo dados obtidos pela reportagem junto a Coordenadoria de Assistência Técnica Integral (CATI), ligado à Secretaria de Agricultura e Abastecimento (SAA) são 10.118 imóveis rurais com Cadastro Ambiental Rural ativo – vale lembrar que esse número engloba pequenos, médios e grandes produtores.

Conforme explicação de Fabio Lucheta Isaac, Chefe de Divisão da CATI Ribeirão Preto, a cana-de-açúcar ocupa a maior área cultivada da região, com presença de arrendamentos e integração com usinas. O café se destaca em áreas de altitude média, cultivado principalmente em propriedades familiares de pequeno porte.

Já as hortaliças formam a base da produção de alimentos locais e abastecem programas institucionais. Já a ovinocultura de leite e a produção artesanal de queijos são atividades típicas da agricultura familiar, com possibilidade de agregação de valor aos produtos.

Reinvenção diária na horta hidropônica

No Jardim Paulistano, zona Leste de Ribeirão Preto, a produtora rural Linda Galbiati de Souza e o marido mantém há uma década uma pequena produção hidropônica. A técnica permite que o cultivo seja feito sem o uso de terra, oferecendo uma alternativa eficiente e sustentável para o plantio.

Ao acidade on, ela contou que a ideia surgiu após viver por três anos em São Carlos, onde o clima mais ameno e experiências locais despertaram o interesse do casal pelo cultivo. Na época, ele trabalhava como funcionário público e ela era proprietária de uma loja de roupas.

A gente plantou e foi bem nos primeiros meses. Depois, perdemos tudo porque não tínhamos experiência nenhuma. Com o tempo, fomos nos reinventando, lutando, pesquisando, pedindo ajuda de um, de outro, de um agrônomo, e fomos indo

Linda Galbiati de Souza

Após o susto e a perda total da produção, Linda conta que o casal fez ajustes importantes na horta. Eles passaram a usar armadilhas adesivas, aplicaram óleo de nim para controlar pragas e inseriram espécies de vespas como forma de manejo natural da plantação.

Embora as mudanças tenham ajudado, ela relata que ainda enfrentaram novas perdas, uma delas causada pelo forte calor de Ribeirão Preto, que aquecia demais a água e, consequentemente, “cozinhava” as raízes das hortaliças.

Vale destacar que a solução nutritiva usada na hidroponia não é composta apenas por água. Segundo a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), ela reúne todos os elementos indispensáveis ao desenvolvimento das plantas, como nitrogênio, fósforo, potássio, cálcio, magnésio, enxofre, ferro, boro, manganês, cobre, zinco e molibdênio.

A gente foi se reinventando. Aí depois veio um calor danado e perdemos tudo de novo. A água esquentava muito e acabava cozinhando a raiz. Mas estamos sempre nos levantando, sempre buscando alternativas, sempre seguindo em frente.”

Linda Galbiati de Souza

Conhecimento e consumação

Com o conhecimento adquirido na prática e o apoio técnico eventual, a produtora explica que hoje o processo é mais organizado. As mudas chegam semanalmente, passam pelo berçário e depois seguem para os canteiros, que são higienizados ao final de cada ciclo.

A colheita é realizada constantemente, várias vezes ao dia, e a produção atende exclusivamente os consumidores do Jardim Paulistano, por meio de retirada ou entrega. “O que é vendido aqui é consumido tudo aqui”, resume Linda.

Do encantamento às abelhas ao empreendedorismo

As abelhas sem ferrão desempenham papel essencial em um dos serviços ecossistêmicos mais importantes do planeta, a polinização. Elas têm ganhado cada vez mais destaque no Estado de São Paulo.

Segundo o Governo Estadual, São Paulo possui mais de 55 mil colmeias, de 75 espécies diferentes, distribuídas em 2.978 meliponários autorizados para o manejo desses insetos nativos.

Só na região de Ribeirão Preto, existem cerca de 265 meliponários, entre eles o de Thiago Lira Buosi, produtor e fotógrafo que se aproximou do mundo do mel quase por acaso. Em entrevista ao acidade on, ele conta que desde criança participava de uma festa promovida pela Apis Flora, empresa pioneira no segmento de própolis, no bairro Dom Miele, zona Oeste de Ribeirão Preto.

O tempo passou e Thiago se tornou fotógrafo, mas, em 2015, ao se mudar para uma chácara e observar um enxame pousar em sua propriedade, voltou a se interessar pelo universo das abelhas. A partir disso, uma conhecida pediu sua ajuda para polinizar uma horta orgânica, e foi assim que ele começou a produzir e a capturar os enxames.

🔎 Segundo explicação da Embrapa, a polinização é a transferência de grãos de pólen das anteras de uma flor para o estigma, que faz parte do aparelho reprodutor feminino, seja na mesma flor ou em outra da mesma espécie. “As anteras são os órgãos masculinos da flor e o pólen é a gameta masculino. Para que haja a formação das sementes e frutos é necessário que os grãos de pólen fecundem os óvulos existentes no aparelho reprodutor feminino.”

Processo de produção e venda dos produtos

Thiago conta que produz cerca de 500 quilos de mel de forma anual e para isso, “existem alguns manejos que a gente faz lá na fazenda para atingir certo número de cada produto”.

Entre os manejos realizados está à oferta de um ambiente adequado para as abelhas, como o pasto apícola, uma vegetação apropriada que serve de alimento para as abelhas fornecerem néctar e pólen.

Já em períodos de escassez, como no inverno, quando a quantidade de flores e água são menores, esse suporte é oferecido diretamente no campo. “Esses são alguns dos manejos que a gente faz para garantir a produção. A abelha vai produzir naturalmente, mas podemos colocá-la em um ambiente adequado para que produza mais”, diz Buosi.

A partir dessa produção, nasceu a marca própria, utilizada para comercializar mel, própolis, pólen, geleia real, favos, velas, cera e hidromel. Ele conta que a venda hoje acontece principalmente online e em algumas feiras, ambiente que, segundo ele, tem papel fundamental no fortalecimento do pequeno produtor.

Essas feiras são oportunidades de alavancar o pequeno produtor, que tem o produto, mas não possui canais para escoar essa produção […] As feiras acabam sendo algo mais intimista, direto do produtor, porque o mel, por exemplo, é um produto muito falsificado e adulterado. Então, o contato do consumidor diretamente com o criador de abelhas elimina essas barreiras, e a pessoa tem certeza de que está comprando um produto original, verdadeiro e de qualidade

Thiago Lira Buosi

Além do sustento complementar, Thiago destaca o impacto familiar e ambiental do seu trabalho com as abelhas. “Para a minha família, elas [as abelhas] são uma fonte de renda, sustentabilidade e ensinamento. Minha filha, por exemplo, já consegue diferenciar os tipos de abelha. Ela é mais conectada com os animais, com o meio natural, e leva isso, por exemplo, para a alimentação saudável no dia a dia dela e para a convivência com os amiguinhos da escola”.

Eu já fui convidado para fazer palestras sobre as abelhas e sobre o quanto elas influenciam no meio ambiente. Isso, para mim, é muito importante, porque é o ambiente no qual a minha filha estará inserida. Se esse ambiente esteja saudável ou não vai depender da gente, com nossa expertise passar isso para outras pessoas

Thiago Lira Buosi

As histórias de Linda e Thiago mostram realidades diferentes, mas complementares. Cada um, à sua maneira, constrói uma agricultura em escala humana, feita de tentativas, aprendizados e vínculos com a comunidade.


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