Por: Adalberto Luque
O avanço do etanol produzido a partir do milho e sua possível utilização no transporte marítimo internacional abrem uma nova perspectiva para o agronegócio, a indústria e a logística brasileiras. A recente definição e aprovação da pegada de carbono do etanol de milho brasileiro pela Organização Marítima Internacional (IMO) para fins de avaliação como combustível marítimo de baixa emissão é apontada por especialistas como uma etapa importante para ampliar a participação do País na transição energética global.
Embora a adoção ainda não ocorra em larga escala, o reconhecimento regulatório representa uma oportunidade estratégica para o Brasil ingressar em um mercado que movimenta cerca de 90% do comércio mundial. O setor marítimo está entre os maiores consumidores de combustível do planeta e busca alternativas capazes de reduzir emissões de carbono, em linha com as metas ambientais internacionais.
Para a CEO da Accrom Consultoria em Logística Internacional e coordenadora do núcleo de comércio exterior do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (CIESP) nas regiões de Ribeirão Preto, Franca e Sertãozinho, Cristiane Fais, o cenário pode representar uma mudança relevante para a economia brasileira.
“A aprovação e o reconhecimento do etanol como alternativa para o transporte marítimo internacional podem representar uma virada histórica para o Brasil. Estamos falando de um mercado gigantesco, responsável pela maior parte do consumo global de combustíveis. O Brasil reúne capacidade produtiva, tecnologia, experiência no agronegócio e uma matriz energética competitiva para se tornar referência mundial em energia limpa”, afirma.
Segundo ela, o avanço obtido junto à IMO não significa que o combustível já esteja sendo utilizado em grande escala pelos navios, mas abre caminho para que o país participe da transformação energética do setor.
“O setor naval trabalha com ciclos longos de investimento, adaptação de motores, infraestrutura de abastecimento, contratos internacionais e certificações. A própria IMO tem metas de ampliação do uso de combustíveis de emissão zero ou quase zero até 2030, com objetivo de alcançar emissões líquidas próximas de zero até 2050. Então estamos falando de uma oportunidade real, progressiva e estratégica para o Brasil”, explica.
A expectativa é que a substituição parcial dos combustíveis fósseis ocorra de forma gradual entre 2030 e 2050, período em que armadores, operadores portuários, indústrias e produtores de energia deverão ampliar investimentos em soluções de menor impacto ambiental.
Empregos e investimentos
A eventual ampliação da demanda internacional por etanol de milho não deve se limitar à produção agrícola. De acordo com Cristiane Fais, o impacto econômico tende a alcançar diversos segmentos ligados à bioenergia.
Ela destaca que a expansão da cadeia envolve usinas, armazenagem, transporte, ferrovias, portos, automação, manutenção industrial, engenharia, certificação ambiental, comércio exterior e serviços especializados. “A oportunidade não está apenas no campo. Ela está em toda a cadeia industrial, logística e tecnológica que se forma em torno da bioenergia”, afirma.
Ainda não existe uma estimativa consolidada de quantos empregos poderão ser gerados especificamente pela utilização do etanol de milho no transporte marítimo internacional. Mesmo assim, a especialista considera que os reflexos tendem a ser positivos em diferentes etapas da cadeia produtiva.
No curto prazo, os postos de trabalho devem surgir principalmente em projetos, obras de infraestrutura, logística e operações industriais. Já no médio e longo prazos, a consolidação do mercado poderá ampliar a demanda por profissionais ligados à tecnologia, exportação, engenharia, manutenção, transporte e gestão ambiental.
Segundo ela, trata-se de uma atividade capaz de gerar empregos qualificados e movimentar diferentes regiões do país simultaneamente.
Exige estrutura
Apesar do potencial produtivo brasileiro, Cristiane Fais ressalta que atender ao mercado marítimo internacional exigirá uma série de investimentos. “O mercado marítimo internacional é gigantesco. O transporte marítimo responde pela maior parte do comércio mundial, então nenhum combustível sozinho deve resolver essa transição”, observa.

Ela afirma que o etanol de milho deve ocupar espaço dentro de uma matriz diversificada de combustíveis de baixo carbono, ao lado de outras alternativas em desenvolvimento. Para ampliar a participação brasileira, será necessário investir em unidades industriais, armazenagem, geração de energia, logística, ferrovias, rodovias, terminais portuários, tecnologia, certificações ambientais e infraestrutura voltada à exportação.
O País já conta com instrumentos de financiamento ligados ao setor de biocombustíveis, incluindo linhas do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e mecanismos vinculados ao RenovaBio. Ainda assim, a especialista avalia que a expansão dependerá da combinação entre investimento público e privado, crédito competitivo, segurança regulatória e políticas públicas consistentes.
“Não basta plantar mais milho. É preciso investir em plantas industriais, armazenagem, energia, logística, ferrovias, rodovias, portos, certificações ambientais, tecnologia e infraestrutura para exportação”, ressalta. Além da produção de etanol, a cadeia também envolve o aproveitamento de coprodutos, rastreabilidade, controle de qualidade, laboratórios, sistemas de gestão, inteligência de mercado e comércio exterior.
Cana e milho devem coexistir
O crescimento do etanol de milho não significa, necessariamente, uma redução das áreas destinadas à cana-de-açúcar. Cristiane Fais avalia que os dois segmentos possuem características distintas e podem atuar de forma complementar dentro da matriz brasileira de biocombustíveis.
“Não devemos pensar em substituição da cana pelo milho, mas em complementaridade aqui no Brasil”, afirma. Ela destaca que a cana-de-açúcar continua sendo estratégica para o País devido à sua tradição, eficiência energética, baixa pegada de carbono e cadeia produtiva consolidada, especialmente no interior paulista.
Já o milho apresenta características próprias, como a possibilidade de armazenamento por períodos prolongados e processamento ao longo de todo o ano, o que proporciona maior previsibilidade industrial.
Segundo a especialista, o risco de competição direta entre as culturas existiria apenas em um cenário de expansão desordenada, sem planejamento agrícola, ambiental, industrial e logístico. No caso de Ribeirão Preto e de cidades como Sertãozinho, ela observa que a cana continua sendo a principal vocação econômica regional.
“A nossa região tem força em equipamentos, automação, manutenção, engenharia, serviços, tecnologia e inteligência para o setor sucroenergético. Ou seja, mesmo que o milho não seja a principal cultura local, a região pode participar fortemente dessa expansão pela indústria, pela inovação e pelos serviços especializados”, diz.
Nova matriz energética
O etanol de milho deverá disputar espaço com outras alternativas em estudo para a descarbonização do transporte marítimo. Entre elas estão biodiesel, óleo combustível com conteúdo renovável, HVO, metanol verde, amônia, hidrogênio e combustíveis sintéticos.
Para Cristiane Fais, o tamanho do mercado marítimo mundial indica que haverá espaço para diferentes soluções energéticas. “O transporte marítimo é tão grande que a tendência é existir espaço para diferentes soluções, dependendo da rota, do tipo de navio, da infraestrutura disponível e da viabilidade econômica”, afirma.
Ela considera que o principal desafio é preparar o país para participar dessa nova matriz global de combustíveis, aproveitando sua experiência em biocombustíveis e sua capacidade produtiva.
Entidades e articulação do setor
A construção desse mercado envolve organismos internacionais, órgãos governamentais, entidades setoriais e iniciativa privada. No cenário internacional, a IMO lidera a agenda regulatória relacionada à redução das emissões do transporte marítimo.
No Brasil participam instituições como Ministério de Minas e Energia, Ministério da Agricultura e Pecuária, Agência Nacional do Petróleo, Empresa de Pesquisa Energética, BNDES e Petrobras.
Também atuam entidades representativas como a União Nacional do Etanol de Milho (UNEM) e a União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica), além de feiras e eventos do setor, como a Fenasucro & Agrocana, realizada em Sertãozinho.
Segundo Cristiane Fais, o desenvolvimento dessa nova frente econômica dependerá da coordenação entre governo, empresas, investidores, produtores, operadores logísticos e mercado internacional.
Milho e cana: vantagens distintas
O Brasil é atualmente um dos maiores produtores mundiais de etanol de cana-de-açúcar, enquanto os Estados Unidos lideram a produção baseada no milho. De acordo com estudo do Centro de Conhecimento em Bioenergia da Universidade Federal de Viçosa (UFV), as duas matérias-primas apresentam características que influenciam produtividade, armazenamento, rendimento industrial e impacto econômico.
No caso do milho, cada tonelada pode gerar entre 370 e 460 litros de etanol. A cultura permite armazenamento por períodos de dois a três anos, favorecendo o processamento contínuo ao longo do ano.
Além do combustível, a produção gera coprodutos aproveitados pela indústria, como óleo de milho para biodiesel e insumos para alimentação animal. Por outro lado, a produtividade agrícola é menor. Um hectare produz aproximadamente cinco toneladas de milho, exigindo áreas maiores de cultivo para obtenção de volumes elevados de matéria-prima.

Já a cana-de-açúcar apresenta produtividade média de cerca de 70 toneladas por hectare. Cada tonelada produz entre 70 e 80 litros de etanol, beneficiada pela elevada concentração de sacarose, facilmente convertida durante a fermentação.
Outro diferencial é o aproveitamento do bagaço, utilizado na geração de energia elétrica e na produção de etanol de segunda geração, ampliando o rendimento e a sustentabilidade do processo.
Segundo o estudo, fatores como clima, disponibilidade de água, eficiência energética, produtividade e impacto ambiental influenciam a escolha da matéria-prima. Enquanto a cana apresenta melhor adaptação a regiões tropicais, o milho encontra condições favoráveis em áreas de clima mais ameno e chuvas moderadas.
A análise conclui que não existe uma matéria-prima universalmente superior. A viabilidade depende das características agrícolas, econômicas e ambientais de cada região produtora.

