Por Adriana Silva – responsácel pela curadoria da FIL (Feira Internacional do Livro de Ribeirão Preto) e presidente da Fundação do Livro e Leitura.
Toda geração aprende a ler o mundo antes mesmo de aprender a ler palavras. Houve quem descobrisse histórias pelas páginas amareladas dos livros da biblioteca da escola; outros chegaram à literatura pelas adaptações cinematográficas; há quem encontre um poeta pela primeira vez em um vídeo de poucos segundos nas redes sociais. São apenas formas diferentes de iniciar a mesma travessia.
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Talvez esse seja hoje o maior desafio das políticas de formação de leitores: compreender que não existem apenas diferentes leitores, mas diferentes modos de construir repertório.
Durante muito tempo, acreditou-se que cada nova tecnologia substituiria a anterior. O rádio acabaria com o jornal. A televisão acabaria com o rádio. A internet acabaria com os livros. O livro digital eliminaria o impresso. Nada disso aconteceu. As linguagens não desaparecem; elas se reorganizam. Continuam coexistindo porque respondem a necessidades humanas distintas.
Papel da curadoria
É justamente nesse cenário que a curadoria de uma feira literária assume um papel muito maior do que selecionar autores ou organizar uma programação. Curar é interpretar o tempo presente. É compreender quais conversas precisam acontecer. É identificar ausências, aproximar diferenças e criar oportunidades para que pessoas que dificilmente se encontrariam possam compartilhar experiências por meio da literatura.
Uma feira literária contemporânea não pode ser construída apenas para leitores habituais. Ela precisa acolher também quem ainda não se reconhece como leitor. Precisa dialogar com a criança que chega pela contação de histórias, com o adolescente que acompanha escritores nas redes sociais, com o professor que busca novas ferramentas para sua prática, com o pesquisador, com o escritor iniciante, com o idoso que reencontra nos livros parte de sua própria memória.
Essa mediação exige equilíbrio. É preciso manter vivos os autores que ajudaram a construir nossa tradição literária, mas também abrir espaço para novas vozes que ampliam nossa compreensão do país e do mundo. É necessário valorizar a produção local sem perder de vista o diálogo nacional e internacional. É fundamental incorporar diferentes expressões culturais: oralidade, poesia falada, quadrinhos, ilustração, audiovisual, podcasts, literatura digital, sem que isso represente abandonar o livro, mas sim reconhecer que a experiência literária se expande por múltiplas linguagens.
A curadoria, nesse sentido, deixa de ser apenas uma organização de agendas para se tornar uma arquitetura de encontros. Não se trata apenas de perguntar quem estará presente na programação, mas quais conversas desejamos provocar.
Em tempos marcados pela velocidade da informação, pelos algoritmos que reforçam preferências e pela fragmentação dos espaços de convivência, uma feira literária oferece algo raro: a possibilidade do encontro entre pessoas que pensam, leem e vivem de maneiras diferentes. Essa talvez seja sua maior contribuição.
A literatura continua sendo um dos poucos lugares onde diferentes gerações conseguem compartilhar uma mesma narrativa sem precisar abrir mão de suas próprias experiências. Um romance lido por um adolescente não produz o mesmo efeito que produz em alguém de sessenta anos, mas ambos podem conversar sobre ele. A boa literatura não uniformiza interpretações; amplia possibilidades de diálogo.
Ao celebrar vinte e cinco edições, a Feira Internacional do Livro de Ribeirão Preto reafirma uma trajetória construída pela capacidade de acompanhar as transformações da sociedade sem perder sua essência. Permanecer relevante significou compreender essas mudanças, sem confundir inovação com modismo nem tradição com imobilismo.
Talvez seja essa a missão mais importante da curadoria: criar pontes fazendo com que diferentes gerações descubram que seus repertórios não competem entre si, mas se complementam.
Quando isso acontece, a feira deixa de ser apenas um conjunto de atividades culturais. Ela se transforma em um lugar onde diferentes tempos aprendem a conversar.





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