Levante do PCC completa duas décadas

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Por: Adalberto Luque

 

 

O delegado Adelson Taroco tinha 39 anos e respondia pelo 1º Distrito Policial (DP) de Jaboticabal e pela Cadeia Pública da cidade. Ingressou na Polícia Civil em 31 de dezembro de 1888 e, em agosto de 1989, assumiu sua primeira delegacia, na cidade de Cândido Rodrigues, distante 100 km de Ribeirão Preto.

Natural de Ariranha, era casado e tinha dois filhos. Foi para a região de Jaboticabal em 1991 e passou por várias cidades. Desde 2004, estava à frente do 1º DP e da Cadeia Pública de Jaboticabal. Era uma pessoa muito querida e respeitada. Inclusive pelos presos da unidade que supervisionava, conhecido por tratar todos com respeito e atenção.

No dia 14 de maio de 2006, tudo mudou. Os presos da Cadeia Pública de Jaboticabal, atendendo a um Salve Geral determinado pela facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC), se rebelaram.

De boa-fé, Taroco entrou na área onde os presos estavam rebelados para dialogar. Em uma atitude covarde e criminosa, ele foi enrolado em colchões onde os presos atearam fogo.

O delegado teve entre 70% e 80% do corpo atingidos. Foi levado para o Hospital das Clínicas – Unidade de Emergência (HC-UE), em Ribeirão Preto. Lutou por sua vida por 20 dias, mas não resistiu aos gravíssimos ferimentos e morreu.

Pelo menos oito pessoas foram condenadas pelo Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) pelo crime. A Justiça determinou o pagamento de indenização por danos morais à viúva e aos dois filhos de R$ 394 mil, além de uma pensão mensal. Nada suficiente para reparar a brutal morte do delegado.

O “Dia D”

Na noite de 12 de maio de 2006, sexta-feira que antecedia o Dia das Mães, o Estado de São Paulo foi alvo de uma série de ataques coordenados pelo Primeiro Comando da Capital (PCC), em uma das maiores crises de segurança pública já registradas no país.

O estopim da ofensiva foi a decisão do governo paulista de transferir 765 presos, entre eles integrantes da cúpula da facção, para a Penitenciária 2 de Presidente Venceslau, unidade de segurança máxima no oeste do Estado. A informação vazou para líderes do grupo, comandado por Marcos Willians Herbas Camacho, conhecido como Marcola.

O delegado Adelson Taroco morreu 20 dias após ter o corpo incendiado por presos rebelados na Cadeia Pública de Jaboticabal | Arquivo Sinpol

Segundo investigações, presos beneficiados pela saída temporária do Dia das Mães receberam a ordem de promover atentados nas ruas, com ataques a bases policiais, incêndio de ônibus, destruição de viaturas e ações contra prédios das Polícias Civil e Militar. Em poucas horas, delegacias, fóruns, agências bancárias e prédios públicos foram atingidos. Policiais e agentes penitenciários passaram a ser executados, muitos deles fora de serviço.

Ao mesmo tempo, o sistema prisional entrou em colapso, com rebeliões em 73 a 94 unidades prisionais e participação simultânea de milhares de detentos. Em alguns presídios, familiares foram mantidos como reféns durante as visitas do Dia das Mães. Nas ruas, mais de 80 ônibus foram incendiados e cidades inteiras tiveram escolas fechadas, comércio paralisado e redução do transporte coletivo.

Os números variam conforme a metodologia adotada, mas levantamentos posteriores apontam que ao menos 59 agentes públicos foram mortos e 564 pessoas assassinadas entre 12 e 21 de maio, incluindo civis, suspeitos e vítimas de confrontos e execuções. Vinte anos depois, os chamados “crimes de maio” permanecem como um marco da capacidade de articulação do crime organizado dentro e fora dos presídios paulistas. Capaz de chocar não apenas o Estado de São Paulo, mas todo o planeta.

“Eram covardes”

O investigador de polícia Reginaldo Calil, hoje aposentado, trabalhava no 4º DP de Franca em maio de 2006. “Meu parceiro era o Lourival Júnior. O delegado distribuiu as equipes em pares. Ficávamos na delegacia e só saíamos em diligência com apoio das demais equipes. Nossa equipe era a D e nossa área era a do Jardim Aeroporto”, recorda.

Segundo o investigador, em Franca os ataques foram mais direcionados aos ônibus urbanos. “O ataque do PCC era colocar fogo nos ônibus. Nós pegamos o autor. Ele confessou a autoria e foi preso”, acrescenta.

Para Calil, foi uma época muito ruim. “Eles eram covardes, atacavam pessoas que trabalhavam na delegacia, no setor administrativo, mas não portavam armas”, lamenta. Um deles foi com a caminhonete da Polícia Civil e houve uma ação contra sua residência. Calil também relata o ataque a um agente penitenciário. Mas não houve mortes na cidade.

Ribeirão Preto

As determinações da facção comandada por Marcola foram seguidas em todo o Estado, sobretudo nas maiores cidades, como Ribeirão Preto. A mensagem que trouxe violência e pânico foi passada através de uma granada na cidade.

O primeiro ataque ocorreu no prédio do 2º DP, na Praça Santo Antônio, Campos Elíseos, zona Norte da cidade. Uma granada foi lançada no local e o estrago foi grande. Felizmente ninguém se feriu. A segurança pública, esta sim, estava gravemente ferida, através dos ataques a prédios públicos, ônibus do transporte coletivo e viaturas policiais.

Um dos alvos foi a base da Polícia Militar, no bairro Quintino Facci II, na zona Norte. Os PMs que estavam na base receberam um telefonema pouco antes, informando sobre uma ocorrência grave nas proximidades, que depois foi constatado se tratar de informação falsa, apenas para deixar a base desprotegida para o ataque dos criminosos.

Ônibus em chamas simbolizaram o clima de terror que tomou conta do Estado de São Paulo durante os ataques no “maio sangrento” | Foto: Alfredo Risk / Arquivo Tribuna

Assim que os PMs saíram, ocorreu o ataque. Vários tiros foram disparados por homens que chegaram em duas motos. Usaram pistola calibre .45 e atingiram a porta de vidro, janelas e a placa de identificação da base. Três PMs que estavam no local em uma sala não atingida, ainda saíram para tentar revidar, mas os criminosos já haviam fugido.

O “Salve Geral” também levou comerciantes de uma avenida no bairro Adelino Simioni a fecharem as portas de seus estabelecimentos. A ameaça se concretizou: uma revenda de motocicletas permaneceu aberta e foi alfo de 12 tiros de calibre .380 – mesmo calibre usado em tiros disparados a três agências bancárias na avenida Mogiana – embora nos três estabelecimentos bancários, durante investigações, foi considerado um caso isolado e não um ato provocado por integrantes da facção criminosa.

Além dos ataques, grande parte das unidades prisionais do Estado passaram por rebeliões. E na região do Departamento de Polícia Judiciária do Interior (Deinter-3), responsável pela Polícia Civil em 93 cidades, não foi diferente.

Nesse contexto, cabe ressaltar a observação feita pelo Diretor do Deinter-3 à época, delegado Anivaldo Registro, que elogiou o fato de não ter ocorrido sequer uma fuga em Ribeirão Preto e nos demais 92 municípios da área.

O saldo mais pesaroso do levante dos criminosos faccionados foi mesmo os 17 mortos na região de Ribeirão Preto, onde figuraram um agente penitenciário e três policiais militares, além do delegado barbaramente morto em Jaboticabal.

Se preparava para casar

Arildo Ferreira da Silva, de 34 anos, estava na Polícia Militar havia 15 anos. Passou por vários setores da Corporação, mas foi na Polícia Militar Ambiental (PMAmb) que escolheu seguir carreira. Considerava uma atividade menos arriscada para ele e a família que pretendia constituir.

Ele e a noiva cuidavam dos preparativos para o grande dia. Se casariam no final daquele 2006, depois de muito planejamento. Pensavam em ter filhos depois de casados e o trabalho na PMAmb seria uma ótima alternativa.

Arildo passou o domingo, 14 de maio de 2006, ao lado da noiva. No início da noite, foi deixá-la em casa, no bairro Geraldo Correia de Camargo, na zona Norte. Ao deixá-la, enquanto ia embora, foi emboscado por homens armados.

Arildo foi atingido por pelo vários disparos. A perícia contabilizou 15 cápsulas de pistola 9mm. No decorrer das investigações, uma mulher foi presa, junto com os quatro homens acusados pelo crime. Ela era vizinha da noiva do policial militar morto e teria dado as informações aos homens que o mataram.

Medo no interior

Em Ribeirão Preto, durante os ataques, ônibus foram retirados de circulação, por precaução. Ou circulavam com escolta policial. Parte do comércio fechou e houve reforço de policiamento em bases da PM, delegacias e fóruns.

Polícias Civil e Militar foram às ruas em operações de grande porte para coibir ações criminosas da facção | Foto: Júlio Castro / Arquivo Jornal do Sinpol

A morte de um agente penitenciário que trabalhava na Penitenciária de Serra Azul acendeu o sinal de alerta naquela unidade prisional, um dos maiores complexos prisionais do Estado. O servidor foi executado durante a onda de atentados, reforçando a percepção de que funcionários do sistema prisional estavam entre os principais alvos da facção.

Serra Azul, por concentrar unidades de grande porte, tornou-se ponto sensível durante a crise. O policiamento foi intensificado e servidores passaram a adotar medidas extras de segurança. Em municípios como Sertãozinho, Jaboticabal, Batatais e Cravinhos, houve aumento do patrulhamento e preocupação com possíveis ataques.

Ônibus incendiados

A funcionária pública Jane Araújo, que reside no Santa Cruz, zona Sul de Ribeirão Preto, lembra que viajou com o marido e os filhos para São Paulo, para passar a data comemorativa com sua mãe, que morava em Itaquera.

“Logo que chegamos, costumávamos ir pela Rodovia Presidente Dutra até um ponto, onde acessávamos a Avenida Nagib Farah Maluf até Itaquera, evitando passar pela Radial Leste, que tinha muito trânsito. Logo na Dutra, vimos dois ônibus incendiando. Mas achamos que era algum problema mecânico”, lembra.

No domingo, quando se preparavam para retornar a Ribeirão Preto, viram a notícia na TV, de que estaria havendo uma rebelião. “Não tínhamos ideia do tamanho da coisa. Viemos embora. Quando chegamos é que soubemos da dimensão. Na segunda-feira, não saímos de casa. Não fomos trabalhar e os filhos não foram para a escola. Nos dias seguintes, ia trabalhar com medo. Meu marido ficou com os filhos em casa. Assim foi por uma semana, muito medo”, acrescenta Jane.

Contra-ataque e polêmica

As ondas de atentados começaram a diminuir a partir de 15 de maio, em todo o Estado, sobretudo na Grande São Paulo, onde aconteceram a maior parte dos ataques. Contudo, o número de mortos, sobretudo civis, começou a subir.

Relatórios de organizações de direitos humanos, estudos acadêmicos e dados da Ouvidoria da Polícia apontam que centenas de civis foram mortos em circunstâncias com indícios de execução.

O total de 564 mortos entre 12 e 21 de maio inclui tanto vítimas dos ataques do PCC quanto pessoas assassinadas em supostos confrontos e ações de represália.

Vinte anos depois, os ataques do PCC ainda permanecem como um dos episódios mais violentos e marcantes da história | Foto: Alfredo Risk / Arquivo Tribuna

O episódio deu origem ao movimento Mães de Maio, formado por familiares de jovens mortos naquele período e que, até hoje, cobram esclarecimentos e responsabilização do Estado.

Suspeita-se que, para se vingar da morte de colegas de trabalho, policiais e agentes penitenciários tenham formado grupos de extermínio. Mas assim como nas investigações sobre as mortes dos agentes de segurança, nada ficou provado.

Embora os números apresentem pequenas variações conforme a fonte e o critério utilizado, todos convergem para a constatação de que o Estado enfrentou, naquele mês de maio de 2006, uma crise sem precedentes em sua história recente.

A consolidação do PCC

Os ataques de maio de 2006 marcaram um divisor de águas na trajetória do PCC. A facção, criada em 1993 na Casa de Custódia de Taubaté, já exercia forte influência dentro dos presídios, mas demonstrou naquele momento capacidade de coordenar ações em escala estadual e de desafiar abertamente o poder público.

Nos anos seguintes, o grupo ampliou sua presença para outros estados e países da América do Sul, tornando-se a maior organização criminosa do Brasil.

As mudanças na segurança pública

Após a crise, o governo paulista reforçou a inteligência policial, investiu em sistemas de monitoramento e alterou protocolos no sistema penitenciário. Também houve ampliação do uso do Regime Disciplinar Diferenciado (RDD), criado para isolar lideranças criminosas.

Apesar das mudanças, especialistas observam que o PCC continuou a expandir sua influência, sustentado pelo domínio no sistema carcerário e pela atuação no tráfico de drogas.

Duas décadas depois

Vinte anos após o início da ofensiva, os ataques de maio de 2006 seguem como referência obrigatória em qualquer debate sobre crime organizado no Brasil. As imagens de ônibus em chamas, policiais executados e ruas desertas permanecem vivas na memória de quem acompanhou aqueles dias.

Em Ribeirão Preto e em toda a região, o episódio também deixou marcas. A morte de agentes de segurança e vários civis, o fechamento antecipado do comércio e o clima de incerteza mostraram que o interior paulista não estava imune ao avanço da facção. E o governo menosprezou o tamanho e a capacidade de mobilização da facção criminosa.

Mais do que uma sequência de atentados, maio de 2006 expôs a força do crime organizado, a vulnerabilidade das instituições e o impacto que uma crise de segurança pode provocar no cotidiano de milhões de pessoas.



Texto original daqui